Em outubro, estamos celebrando os 15 anos de história do Instituto C (IC). Quando olhamos para trás, temos orgulho de muita coisa que construímos em parceria com diversas pessoas e organizações. Uma delas é, sem dúvidas, a nossa metodologia própria, feita para atender às especificidades das famílias que passam pelos nossos polos.
Isso porque, para garantir o acesso a direitos de famílias com crianças e adolescentes em risco social, o IC precisa oferecer um cuidado sistematizado, montado em uma base metodológica bem planejada e feito por uma equipe qualificada, que considera as condições e demandas de cada território em que atua. Afinal, toda ação social, para alcançar o impacto desejado, precisa vir acompanhada de uma boa organização e planejamento.
O que significa metodologia?
Metodologia é a junção de métodos e caminhos necessários para que um objetivo seja alcançado. Em uma pesquisa acadêmica, por exemplo, a metodologia se refere a tudo que o pesquisador precisou fazer para alcançar os resultados (como entrevistas, questionários e análise de dados).
No contexto em que estamos inseridos, nada mais é do que o modo como executamos o nosso trabalho. Ou seja, é o conjunto de processos, técnicas e ferramentas que utilizamos diariamente para alcançarmos o impacto social que buscamos. Alguns exemplos que fazem parte da metodologia de uma organização do terceiro setor são:
– Em quais dias ela realiza suas ações rotineiras;
– Como ela computa os indicadores de seu trabalho;
– Por quanto tempo ela atende cada pessoa beneficiada.
As origens da metodologia do IC
Quinze anos atrás, o Instituto C nascia enquanto uma unidade paulista do Instituto Dara (organização do Rio de Janeiro que, à época, chamava-se Associação Saúde Criança, ASC). Por isso, nossa metodologia era a mesma construída pelo Dara para atender às famílias nos demais estados em que atuava: o chamado Plano de Ação Familiar (PAF)*. Esse plano era construído junto de cada família, para que a criança com diagnóstico pudesse superar as dificuldades imediatas e se desenvolvesse a médio e longo prazo.
*Atualmente, a metodologia do Instituto Dara se desenvolveu e é chamada de Método Dara.

Rodada de atendimentos na primeira sede do Instituto C, em 2012
Muitos elementos da nossa metodologia, portanto, diferenciavam-se do que temos hoje. Por exemplo:
– Nosso atendimento era voltado a famílias com crianças com diagnósticos graves ou raros, em situação de risco social.
– Essas pessoas eram encaminhadas por hospitais parceiros, sobretudo o Santa Casa, próximo a nossa sede.
– Havia uma presença muito forte de voluntários realizando os atendimentos às famílias.
– Por dia, havia dois atendimentos em grupo (um para as famílias da manhã, outro para as que vinham à tarde). Depois, cada família se sentava em uma das áreas de atendimento e passavam obrigatoriamente 15 minutos em cada mesa. Ao final, retiravam benefícios (como cesta básica) e iam embora, para retornar no mês seguinte.
O que começou com o acompanhamento de famílias diante do adoecimento de uma criança ou adolescente passou a integrar outras dimensões da vida familiar, como geração de renda, desenvolvimento na primeira infância, educação, fortalecimento de vínculos e acesso a direitos”, diz Nayara Oliveira, Coordenadora de Desenvolvimento Institucional do Instituto C.
Mudanças metodológicas
O cuidado multidisciplinar e integral às famílias que passam por aqui, que já existia lá atrás, permanece vivo até hoje. Mas, com o passar dos anos, nossos métodos foram mudando para responder às demandas que surgiam.
A equipe técnica, por exemplo, começou a apontar que o tempo de atendimento já não era suficiente para acolher e dar os direcionamentos necessários às famílias. O atendimento voluntário também não se mostrou viável a longo prazo, necessitando da contratação de mais profissionais para compor a equipe técnica. Já a exigência de atender crianças com diagnósticos complexos foi revista e hoje recebemos também famílias com crianças sem diagnósticos.
Outra mudança foi na recepção de novas famílias. Em dado momento, o IC entendeu que poderíamos receber famílias para além dos encaminhamentos dos hospitais parceiros, como por meio de indicação. O modo como atendemos as famílias também mudou, com o intuito de trazer maior tempo de qualidade, acompanhamento contínuo, escuta qualificada e autonomia para cada uma delas.

Atendimentos individuais na atual sede do Instituto C
Uma metodologia com foco no cuidado
Hoje, o Instituto C conta com uma metodologia própria de acompanhamento familiar, construída a partir da experiência desses 15 anos e apoiada na Política Nacional de Assistência Social e na Política Nacional de Cuidados, que foi publicada em 2024 e respaldou o trabalho que já realizávamos.
Para cumprirmos com a missão de garantir o desenvolvimento pleno de crianças em risco social, identificamos como principal método cuidar de quem cuida delas — e esse é um dos maiores destaques da nossa metodologia. Buscamos fortalecer as famílias (muitas vezes, mulheres sobrecarregadas pelo trabalho invisibilizado do cuidado), ampliando o acesso a direitos e corresponsabilizando o Estado pelo cuidado dessas crianças.
O que é trabalho invisibilizado de cuidado?
Para que cada pessoa trabalhe e tenha uma vida digna, é preciso que alguém cuide dela. Esse cuidado pode ser remunerado e vir de empresas e profissionais (como médicas, cozinheiras e enfermeiras), mas ocorre também de modo não remunerado dentro de casa. A sociedade, de modo geral, responsabiliza as mulheres por essas tarefas: limpar a casa, cozinhar, cuidar de familiares doentes, lavar roupa, etc. Todo esse trabalho ocorre diariamente, mas não é tão reconhecido. Quando, por exemplo, alguém olha para o diretor renomado de uma empresa, poucos se perguntam: “Quem cuida desse profissional, para ele chegar onde chegou?”
E de que modo ampliamos o acesso a direitos? Ao atendermos uma família, entendemos primeiramente suas necessidades para, depois, buscarmos junto dela os caminhos necessários nas diferentes secretarias do Estado, concentrando em um só lugar as informações sobre diferentes políticas públicas que essas pessoas têm direito. Assim, essas famílias conseguem acessar vagas em creche, direito à moradia, atendimentos de saúde, entre outros. Isso porque, para reduzirmos as desigualdades econômicas, entendemos que devemos considerar todos os aspectos da vida de quem é pobre, não apenas sua renda.
Como funciona na prática?
Muitas famílias chegam por conta própria, por indicação de outras famílias ou por encaminhamento de serviços da rede, como CRAS, UBS, escolas e outros parceiros. Para participar, basta ter ao menos uma criança ou adolescente, estar em situação de vulnerabilidade social e ter interesse no projeto.
Assim que chegam ao IC, as famílias passam pela triagem, em que é feita uma análise socioeconômica das vulnerabilidades dessas pessoas. Em seguida, cada família é encaminhada ou para o grupo de recepção, ou para nossa lista de espera.
Um divisor de águas em nossa metodologia foi quando entendemos que a chave para oferecermos um acompanhamento familiar integral era nomear, para cada família, uma técnica de referência da nossa equipe. Essa estratégia surgiu ao aperfeiçoarmos nossa metodologia para replicarmos em uma parceria com o Instituto Alimentando o Bem (IAB, saiba mais ao fim da matéria). Essa profissional (seja ela assistente social, psicóloga, nutricionista ou pedagoga) é responsável por acompanhar as diversas demandas da família, enxergando-a de modo completo. Cada família pode passar por diferentes áreas de modo complementar, mas é sua técnica de referência quem a acompanha de perto e constrói, junto dela, o Plano Individual de Atendimento (PIA).
Esse plano define quais áreas do saber vão atender a família (serviço social, psicologia, nutrição, pedagogia ou inclusão produtiva) e com que frequência. O PIA é revisado a cada três meses, sempre em parceria com a família, para fortalecer o protagonismo dela.
Como vínculo sempre foi algo prioritário para o IC, estendemos a duração dos atendimentos individuais e coletivos e, além disso, adotamos o acompanhamento integralizado das técnicas de referência”, destaca Nayara.

Grupo de encerramento no Polo Zona Norte da cidade de São Paulo
Além dos atendimentos individuais, as famílias participam de oficinas e rodas de conversa, como fazíamos desde o começo, e, em alguns polos, as crianças e adolescentes têm atividades em grupo próprias para elas. E os benefícios, como cestas básicas, seguem presentes para aquelas famílias que necessitam do apoio.
Hoje ofertamos acolhimento e escuta atentos às necessidades, fragilidades e potencialidades dessas famílias, para co-construir estratégias de enfrentamento e rompimento dos ciclos de exclusão social”, explica Nayara.
Toda semana, a equipe se reúne para discutir casos e pensar novas estratégias, sempre em articulação com a rede de serviços do território. Outra ferramenta importante é o nosso sistema próprio de monitoramento, onde fica registrado todo o percurso das famílias no Instituto C. É nele que fazemos a triagem, construímos o PIA e anotamos a evolução de cada atendimento, os encontros em grupo, as visitas e os encaminhamentos para a rede.
Com essas informações reunidas em um só lugar, a técnica de referência e as demais áreas conseguem acompanhar juntas a caminhada de cada família. O sistema também guarda os indicadores avaliados pela equipe, como autoestima, autonomia e renda, que ajudam a entender as conquistas das famílias e a ajustar o cuidado sempre que preciso.
Expandindo nossa metodologia
Nos últimos anos, o movimento de expansão do Instituto C nos permitiu levar a metodologia para fora da nossa sede no Centro, em que ela foi inicialmente desenvolvida. Criamos outros polos de atendimento e fomos aprendendo a adaptar a metodologia para responder às necessidades específicas de cada território. No Polo Zona Norte de São Paulo (criado em 2022), nossa rotina conta com cursos profissionalizantes de parceiros locais, que complementam o atendimento. No Polo Taubaté (2025), não temos um espaço próprio para nossos atendimentos em grupos: eles acontecem nas unidades de nossos parceiros. Já no Polo Porto Alegre (2025), estamos alocados dentro de um espaço de convivência financiado pelo Instituto Mari Johannpeter (IMJ) e nossos atendimentos ocorrem em complemento ao trabalho de reforma habitacional do IMJ, além de incluir visitas domiciliares a todas as famílias.
-
- Rodas de conversa em POA e Taubaté
Entre 2023 e 2026, fizemos uma parceria que nos permitiu replicar nossa metodologia fora de nossos polos de atendimento. O Instituto Alimentando o Bem atua com o desenvolvimento territorial de comunidades do mangue de Guarujá, no litoral de São Paulo. Eles começaram as atividades em 2020 com uma ação emergencial no bairro do Perequê durante a pandemia, distribuindo marmitas e outras doações para moradores de palafitas que foram prejudicados por enchentes. Porém logo entenderam que o serviço que eles podiam oferecer não estava completo. Passaram a ofertar uma maior variedade de serviços, até conhecerem o Instituto C e perceberem que o cuidado integral da nossa metodologia seria essencial para o desenvolvimento pleno dessas famílias.
Assim, o que começou com algumas orientações oferecidas pelo Instituto C ao IAB logo se transformou em uma verdadeira experiência de replicação de nossa metodologia. O Alimentando o Bem contratou, inicialmente, uma assistente social para escutar as famílias, conhecer o território e suas demandas, e logo complementou o atendimento de serviço social com as áreas de psicologia e pedagogia, dando início ao programa Rede Cidadã.

Instituto Alimentando o Bem, no Guarujá (SP)
Assim que a parceria começou, os Institutos se deram conta de que seria necessário fazer algumas adaptações na metodologia para que ela pudesse funcionar de modo eficaz em Guarujá. Lá, famílias de diferentes projetos (alguns que não previam encerramento de ciclo) passaram a participar do Rede Cidadã. E como não tinham previsão para deixar os serviços do Instituto, esses casos acabavam complicando o entendimento dos indicadores coletados pelo sistema. Por essa e outras questões, o IC desenvolveu um novo formato do sistema, para que pudesse ser eficiente no monitoramento dos atendimentos em Guarujá. Outra diferença relevante era que o Alimentando o Bem era aberto para todas as famílias da região (sobretudo mulheres), não só aquelas que continham crianças e adolescentes.
A experiência no Guarujá foi um grande aprendizado para o Instituto C. Ao adaptar a nossa metodologia para outro território, a gente também passou a olhar com mais atenção para o nosso próprio jeito de fazer”, comenta Nayara. “A técnica de referência é um bom exemplo disso. Lá, cada família passou a ter uma profissional que acompanhava toda a sua trajetória, e logo percebi que essa lógica também fortaleceria o vínculo e a continuidade do cuidado com as famílias em São Paulo. Foi assim que levamos essa prática para os nossos polos.”
O Rede Cidadã deixou frutos importantes para o Alimentando o Bem. Foi por meio dela que o Instituto se reconheceu como organização da proteção social básica, conquistou o certificado municipal de assistência social e, mais tarde, o estadual. Eles passaram a participar das reuniões de rede, sediaram encontros do Conselho Municipal de Assistência Social e, desde o começo de 2025, recebem o CRAS uma vez por semana em suas instalações, já que o equipamento mais próximo fica longe da comunidade. Entre 2023 e 2025, os indicadores acompanhados no sistema mostraram aumento no acesso das famílias aos serviços socioassistenciais e à rede de saúde.
O Instituto C também aprendeu muito com a experiência. Foi a partir dela, inclusive, que criamos uma nova frente de atuação dedicada à multiplicação de nossa metodologia e capacitação de organizações parceiras.
Cada território tem suas próprias demandas, e o Guarujá nos mostrou que levar a nossa metodologia para outros lugares exige escuta e adaptação. Hoje, antes de iniciar uma nova parceria, fazemos um diagnóstico socioterritorial e buscamos entender o que é a base do nosso trabalho e o que pode mudar no jeito de fazer. Assim, conseguimos compartilhar o que aprendemos e fazer com que mais famílias, em diversos territórios, recebam um cuidado integral e qualificado”, completa Nayara.



