Aniversário IC

15 anos de Instituto C: como tudo começou

A história do Instituto C começa antes de sua fundação oficial, em uma inquietação que acompanhava Vera Oliveira no dia a dia de trabalho. Formada em Relações Públicas, em Comunicação Social, ela passou cinco anos na área de pesquisa de mercado, ajudando marcas a planejar o lançamento de novos produtos — por exemplo, estimar quantas unidades uma nova versão de maionese venderia no primeiro ano.

O trabalho tinha método, lógica e processo, e Vera gostava da empresa e das pessoas. Ainda assim, algo não se encaixava. “Eu ia trabalhar me perguntando: ‘O que eu estou fazendo da minha vida?‘“, lembra. “No fundo, eu pensava: o mundo talvez não precise de mais um sabor de refrigerante ou de sabão em pó.”

O voluntariado fazia parte da vida dela desde a adolescência, em campanhas, gincanas, arrecadações de cestas básicas e ações ligadas à igreja. A visão que tinha do terceiro setor, porém, era limitada: via as ONGs como iniciativas assistencialistas e pequenas, sem espaço para carreira, metodologia, gestão ou expansão. Aos amigos, dizia que um dia teria uma grande ideia e começaria um negócio social.

O encontro com o Saúde Criança

Foi nesse contexto que Maristela Correa, amiga de Vera e então publicitária, a apresentou a outra Vera, a doutora Vera Cordeiro, fundadora do Saúde Criança (atual Instituto Dara), no Rio de Janeiro. A organização já atuava em várias cidades do país, mas não em São Paulo, com o foco em atender famílias com crianças em situação de vulnerabilidade e com questões de saúde.

O que mais chamou a atenção de Vera no Saúde Criança foi o olhar multidisciplinar que eles tinham sobre a pobreza. Eles entendiam que a doença de uma criança, muitas vezes, se relacionava também a condições sociais: falta de renda, moradia inadequada, insegurança alimentar, dificuldade de acesso a direitos e fragilidade dos vínculos familiares. “E isso tudo fez muito sentido para mim”, conta.

Por isso, ela tirou um dia de folga e foi ao Rio conhecer o projeto. Logo na chegada, a doutora Vera Cordeiro a apresentou à equipe como fundadora do Saúde Criança São Paulo. “Eu fiquei completamente sem reação. Disse: ‘Não, doutora Vera, acho que a senhora se confundiu. Eu vim só conhecer’.”

A apresentação se repetiu ao longo do dia. Vera Cordeiro chamou famílias para contarem suas histórias e mostrou os atendimentos, as áreas e a metodologia. À tarde, reuniu responsáveis por diferentes setores para explicar o que seria necessário para abrir uma franquia social, como um conselho, uma parceria com hospital público, uma estrutura mínima e uma rede de apoio. “Eu pensava: ‘Ela realmente não entendeu. Amanhã eu volto para o meu trabalho!'”

Vera voltou a São Paulo com uma pilha de manuais e materiais, e com a dúvida se aquilo viraria apenas mais papel guardado dentro do quarto.

A decisão

No dia seguinte, o chefe de Vera ligou para contar que havia pedido demissão e estava deixando a empresa. Diante da perspectiva de começar uma relação com uma nova liderança e explicar, mais uma vez, que sonhava com outro caminho, ela respondeu sem planejar: “Eu também!” Ele quis saber se ela iria para outro instituto de pesquisa ou se ia realizar o sonho. “Vou realizar meu sonho”, disse.

Na mesma hora, escreveu à doutora Vera Cordeiro aceitando começar o projeto em São Paulo e ligou para Maristela, aquela amiga que havia feito a apresentação. No fim do dia, as duas conversaram e combinaram de pensar juntas em uma estrutura mínima. A agência buscaria clientes para captar recursos para a organização do Rio e aproveitaria para pedir apoio também para São Paulo.

Da esquerda para a direita: Maristela Correa, Dra. Vera Cordeiro e Vera Oliveira

Com o apoio de uma consultoria pro bono, nasceu o plano inicial, baseado na metodologia do Rio: atender 50 famílias até o fim do primeiro ano, com cinco novas entradas por mês. Para isso, seriam necessários uma assistente social, um espaço, recursos para apoiar as famílias e uma parceria com um hospital público responsável pelos encaminhamentos.

A parceria com a Santa Casa e a fundação

O passo seguinte foi buscar uma parceria com a Santa Casa, uma das etapas mais desafiadoras do começo. “Eu era uma jovem de 24, 25 anos, sem contato nenhum com hospital, tentando abrir portas”, lembra Vera. O caminho passou pela pediatria, pelo comitê de ética e pela diretoria do hospital, com muito zelo em relação ao uso do nome da Santa Casa como parceira de uma ONG. Depois de seis meses, veio o aceite.

Nossa assembleia de fundação aconteceu em um espaço emprestado pela agência, com a presença da doutora Vera, que veio do Rio, e de cerca de 40 a 50 pessoas entre amigos, familiares e pessoas próximas.

Assim nasceu o Saúde Criança São Paulo, em 12 de outubro de 2011, em parceria com a Santa Casa. Naquele dia, a doutora Vera contou a trajetória da organização no Rio, e Vera Oliveira compartilhou seu sonho e a expectativa de construir em São Paulo um trabalho capaz de transformar a vida das famílias.

As atividades começaram no ano seguinte, com o atendimento a famílias com crianças com doenças crônicas ou graves encaminhadas por hospitais públicos de São Paulo. A base do trabalho era o Plano de Ação Familiar (PAF), tecnologia social desenvolvida pelo Saúde Criança.

Os primeiros recursos

Depois da fundação, era preciso alugar um espaço, contratar uma assistente social, comprar itens para as famílias e estruturar o atendimento, tudo isso sem dinheiro em caixa. O Saúde Criança ofereceu um apoio inicial durante seis meses, importante, porém insuficiente para tudo o que precisava ser feito. “Foi aí que comecei a entender, na prática, o que significava captar recursos.”

Vera inscreveu o Instituto em uma organização que fazia a ponte entre famílias filantropas e projetos sociais, sem muita expectativa. Poucas semanas depois, soube que a família Jereissati havia se interessado pela proposta. A conversa inicial trouxe uma surpresa: a família queria apoiar a iniciativa financeiramente. “Foi um divisor de águas.”

Naquele momento, a organização ainda nem tinha conta bancária. Enquanto alugava a primeira casa, na região de Santa Cecília, perto da Santa Casa, Vera mandava e-mails a amigos pedindo ajuda para a reforma e tentava abrir uma conta.

Para uma organização recém-criada, era um desafio enorme: os bancos pediam um histórico de doadores que ainda não existia, e sem conta não era possível receber doações. Aos poucos, tudo foi acontecendo e a primeira família doadora segue apoiando o Instituto C até hoje.

Eu tenho plena consciência de que nada disso existiria sem alguns pilares: a metodologia trazida pela doutora Vera, o apoio dessa família no início e todas as pessoas que passaram pelo instituto e ajudaram a construir o nosso jeito de fazer”, afirma Vera.

 

Crescimento e adaptação ao território

Já no primeiro ano, a unidade paulistana se tornou a maior franquia do Saúde Criança. A rede reunia unidades de diferentes cidades em encontros semestrais de troca de experiências e aprendizados, e nesse convívio foram ficando evidentes as características próprias de São Paulo.

A metodologia foi sendo adaptada à realidade da política pública da cidade. A equipe entendeu que o melhor caminho era construir junto às políticas públicas soluções mais completas para as famílias, articulando assim com o poder público e outras organizações da rede socioassistencial. A visão sobre inclusão produtiva também mudou: antes de oferecer cursos profissionalizantes, tornou-se essencial compreender a realidade financeira de cada família, como quanto ela ganha, quanto gasta, quais são suas possibilidades, desafios e desejos.

Nessa fase também surgiram os primeiros projetos além do PAF. Em 2014, nasceu o Atelier C, voltado à geração de renda das mães atendidas, com capacitação em costura e artesanato, criação de produtos e venda em bazares. No mesmo ano, o PAF ganhou uma estação de atendimento dedicada à primeira infância, para prevenir riscos ao desenvolvimento das crianças.

De Saúde Criança São Paulo a Instituto C

Para essa nova fase, o conselho passou a contar com pessoas mais experientes em terceiro setor, captação e planejamento estratégico. Das conversas, ficou clara a necessidade de discutir o modelo de franquia social e o melhor caminho para o futuro.

Em 2016, um processo de reflexão com a rede colocou três possibilidades na mesa: manter o formato, revendo a governança; romper completamente; ou seguir com a metodologia sob uma nova marca, com autonomia para desenvolver outros projetos e expandir de acordo com a realidade local. A escolha foi pelo terceiro caminho.

“Não queríamos romper com a nossa história”, explica Vera. A intenção era honrar o aprendizado com o Saúde Criança e, ao mesmo tempo, reconhecer que o trabalho em São Paulo havia ganhado novos públicos, novas frentes e uma metodologia com contornos próprios.

A transição foi conduzida com cuidado e construída coletivamente, em conversas com a doutora Vera, o conselho, a equipe e os voluntários. Foram definidos prazos, mudanças de governança e a atualização de sistemas, site, logo e comunicação. Em 12 de outubro de 2016, exatamente cinco anos após a fundação, a organização passou a se chamar Instituto C.

O nome também nasceu com a equipe. Entre as ideias estavam Instituto Criança, Instituto Cuidado e Instituto Coração. Em determinado momento, restou apenas a letra C, e dela veio toda a concepção: Criança, Cuidado, Cidadão. Um lugar que, por meio do cuidado, garante à criança seus direitos enquanto cidadã. A nova marca representou uma virada institucional, a partir da qual o instituto passou a olhar para sua metodologia, sua identidade e seu futuro com mais autonomia. Com a nova identidade, o escopo de atuação se ampliou: o instituto passou a atender famílias com crianças em situação de risco social, sem restringir o atendimento a questões de saúde.

Uma nova sede

Em 2017, a casa da Rua Fortunato já não comportava o trabalho. A organização, que primeiro alugou apenas o andar de baixo e depois também o de cima, enfrentava aperto nos dias de atendimento e alagamentos na brinquedoteca em dias de chuva. Crescia também a sensação de vulnerabilidade, por ser uma casa de rua, com porta aberta e pouca segurança para a equipe e as famílias.

A busca por um novo espaço tinha uma premissa: tudo em um piso só, para ajudar a integrar a equipe em um período de muitas mudanças. Imóveis assim, porém, eram caros e disputados por lojas, supermercados e grandes empresas.

Numa segunda-feira, a equipe chegou e encontrou a casa assaltada. Todos os computadores foram levados. O servidor chegou a ser desconectado, mas ficou, se tivesse sido levado, boa parte do histórico da organização teria se perdido.

Naquele dia, ficou decidido: era hora de ir para um prédio comercial. A equipe sabia que a mudança poderia criar uma barreira inicial para as famílias, mas entendeu que a segurança de todos vinha em primeiro lugar e que a aproximação poderia ser trabalhada com comunicação, acolhimento e vínculo. Assim o Instituto C chegou à atual sede do Centro.

No mesmo período, o Instituto C foi reconhecido (pela primeira de nove vezes) pelo Prêmio Melhores ONGs, do Instituto Doar, referência de reconhecimento no terceiro setor. Isso fortaleceu a mudança de marca, de governança e de público de atuação. A essa altura, o Instituto já mantinha diferentes frentes: o PAF, voltado a famílias com crianças com questões de saúde; o Primeira Infância; e o Educação em Rede, iniciado em 2017, com parcerias com escolas e foco em crianças e jovens com dificuldades no desenvolvimento escolar.

Portas abertas

O planejamento estratégico, feito a cada três anos com a participação da equipe, do conselho e de parceiros, seguiu transformando o instituto. Em 2019, veio uma grande virada: a decisão de funcionar de portas abertas, recebendo famílias também por demanda espontânea e por indicação de outras famílias, além dos encaminhamentos de hospitais e instituições parceiras.

Reunião de planejamento estratégico em 2019

Durante anos, o número de famílias atendidas oscilou conforme o volume de encaminhamentos, às vezes muitas, às vezes poucas. Com a abertura, essa instabilidade deixou de existir, especialmente no Centro.

Uma construção coletiva

Ao longo de sua trajetória, o Instituto C se transformou continuamente. Nasceu de uma metodologia potente e cresceu a partir da escuta, adaptação, inovação e das pessoas que passaram por ali. Cada pessoa da equipe, família, voluntário, parceiro e território ajudou a construir o que a organização é hoje.

O objetivo, segundo Vera, segue o mesmo: oferecer mais qualidade de vida, autonomia e acesso a direitos para as famílias. E isso começa dentro da própria organização. “Não existe cuidado com o outro se a gente não cuida de quem cuida”, afirma.

O cuidado precisa estar na metodologia, mas também no jeito como trabalhamos, como nos relacionamos, como tomamos decisões e como construímos o futuro”, completa.


Esse é o primeiro de uma série de textos especiais da campanha de 15 anos do Instituto C. Na próxima matéria, falaremos mais sobre a evolução e replicação da nossa metodologia, a partir da experiência direta com as famílias.