Nos últimos meses, temos acompanhado a grande quantidade de casos de violência contra a mulher que vieram a público, e nos deparado com um cenário cada vez mais difícil que merece a atenção de todos. Só em 2025, 12 mulheres foram vítimas de violência a cada 24h, número 9% maior do que no ano anterior, de acordo com o boletim “Elas Vivem: a urgência da vida”, produzido pela Rede de Observatórios da Segurança.
Debates e a busca por soluções para combater a violência têm sido mais necessários a cada dia, e essa pauta deve começar ainda na infância, quando as meninas e, principalmente, os meninos, estão no processo de desenvolvimento e aprendizado de valores e comportamentos culturais. Com uma estrutura cultural enraizada, frequentemente associada ao conceito de masculinidade tóxica, que atravessa diferentes espaços da sociedade e ganha ainda mais força na internet, o contato com discursos e comportamentos violentos fazem com que os meninos se sintam na obrigação de reproduzi-los para se encaixarem nesse ambiente de ódio contra as mulheres.
Vemos isso, por exemplo, nas redes sociais, com movimentos como o “red pill”, que fomentam a misoginia. “Já vivemos em uma sociedade patriarcal cercada pelo machismo estrutural, e grupos como esses normalizam o ódio contra mulheres, ajudando a alimentar violência psicológica, digital e física”, pontua Noaly Avenoso, psicóloga do Instituto C.
Com esse cenário de exposição ao ambiente digital e a conteúdos sem regulamentação, vem a urgência de criar, de forma coletiva, ambientes mais seguros e menos preconceituosos para as crianças. Recentemente, tivemos a regulamentação do ECA Digital, o primeiro passo para tornar a internet mais segura para os pequenos.
O que é o ECA Digital e porque ele é importante para ajudar a combater a misoginia?
Aproximadamente 95% das crianças de 9 a 17 anos acessam a internet e não dá para fugir, o universo digital faz parte da vida dos adultos e das crianças, mas precisamos entrar nele de forma consciente e responsável. O psicólogo e especialista em educação digital do Instituto Alana, Rodrigo Nejm, explica o que é a internet para uma criança: “ela usa para formar identidade, para formar amizade, para estudar, para poder, inclusive, falar com os próprios familiares. Então, é mais um ambiente onde ela frequenta diariamente”.
De acordo com o especialista, o ECA Digital vem para mudar toda a arquitetura do ambiente online para que as plataformas estejam preparadas, com condições mínimas de segurança e privacidade para receber crianças. A lei também é uma ferramenta para que os responsáveis tenham mais controle do que as crianças e adolescentes consomem.
Com a regulamentação, as crianças passam a ter acesso a conteúdos limitados de acordo com a idade delas. Como pontua Rodrigo, o que as crianças e adolescentes consomem tem grande influência em suas vidas. “Quando elas assistem vídeos, assistem a influenciadores, elas não estão consumindo só a diversão. Elas estão consumindo também valores culturais e sociais. Elas estão aprendendo também a se comportar”, ressalta.
Assim, o ECA Digital pode ser um forte pilar para barrar conteúdos misóginos que fortaleçam o machismo na infância. Um dos exemplos é a limitação de acesso a conteúdos de pornografia que, ao ser acessado por crianças ao longo da vida, principalmente os meninos, podem produzir um tipo de masculinidade que sexualiza as mulheres e naturaliza a violência.
É preciso orientar e fortalecer a educação
Com o contato frequente com conteúdos violentos e machistas, os responsáveis e pessoas que trabalham com crianças podem notar comportamentos inadequados de meninos em relação às meninas. Dessa forma, é preciso agir antes mesmo dessas atitudes passarem a fazer mal para eles enquanto cidadãos.
Para Rodrigo, do Instituto Alana, as famílias e as escolas precisam trabalhar junto à educação digital, também a educação sexual, que faz com que as crianças entendam os limites do próprio corpo e também do corpo das outras. “É preciso conhecer e acompanhar a vida digital das crianças, mas também fazer essa educação sexual, que não é só sobre sexo, é sobre cuidado e respeito”, explica.
Já Noaly conta que é no dia a dia que os responsáveis podem educar de forma menos preconceituosa com atitudes simples e a busca por conhecimento. Ela reforça que é importante não reproduzir falas e comportamentos que perpetuam o machismo estrutural, buscar informações sobre o tema e corrigir satos e falas na hora.
A internet não é só vilã, ela pode ser aliada
Assim como podemos encontrar conteúdos inapropriados no mundo digital, a internet também pode oferecer um espaço de aprendizagem para as crianças. Canais infantis com informações, desenhos ou músicas podem dar início a discussões sobre temas que fazem parte dessa fase da vida, assim ajudando os responsáveis a ter conversas difíceis de uma forma mais acessível.
“As famílias têm na internet um lugar importante de aprendizado, que pode ser preservado como esse lugar de participação, onde as próprias crianças e adolescentes também podem participar e ter acesso à informação qualificada”, explica Rodrigo.
Agora, cabe a todos nós fiscalizar e garantir que as crianças estejam seguras na internet e que o ECA Digital seja como o Código de Defesa do Consumidor e esteja sempre na memória dos brasileiros. Cuidar das infâncias e educar meninos contra a violência de gênero é uma responsabilidade coletiva: “Se, ao longo da infância, as crianças forem criadas para lutar pelo fim do machismo estrutural, teremos um índice menor de violência contra mulher e homens mais saudáveis psicologicamente”, pontua Noaly.



