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Direitos

Setembro amarelo: descansar é direito, não privilégio

Você se lembra quando foi a última vez que teve um tempo livre na agenda, sem nada para fazer?

Para muitas pessoas, o trabalho ocupa a maior parte do tempo, demandando esforço mental e emocional quase absoluto. A sobrecarga de funções, dentro e fora de casa, avoluma-se à rotina, sobretudo na vida de grupos específicos da sociedade, como de mães solo periféricas.

De acordo com dados de 2022 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do IBGE, as mulheres dedicam quase dez horas a mais que os homens na semana para realizar atividades domésticas, sendo 21,3 horas para elas e 11,7 horas para eles. Uma análise do Ipea a partir dos mesmos microdados mostra que a quantidade de horas dedicadas ao serviço doméstico pode aumentar até dez horas para mulheres mais pobres, com uma variação ainda maior quando consideramos a cor dessas mulheres.

A gente não pode deixar de fazer esse recorte, porque quem é rico tem muito mais recurso. Não tem como comparar, por exemplo, uma celebridade, que tem mais de uma babá contratada dentro de casa, com as mulheres atendidas pelo Instituto C, que muitas vezes não têm rede de apoio e, portanto, tem poucas oportunidades de descanso”, observa Camila Alves, psicóloga da equipe técnica do Polo Porto Alegre do IC.

 

Esse acúmulo de funções se soma ainda ao cuidado com filhos, parentes e demais responsabilidades da vida adulta, tarefa que a sociedade segue depositando sobre as mulheres, fazendo com que a mente dessas pessoas entre em um constante estado de alerta. Além disso, por conta da lógica cada vez mais produtiva que persiste na sociedade, há um sentimento de culpa quando não se faz nada. “Eu percebo que, principalmente para quem é de classe baixa, há essa culpa em relação ao ócio, sabe? Como se a pessoa pudesse estar fazendo algo produtivo, que gerasse um retorno financeiro”, comenta a psicóloga.

Descansar é um direito básico

Não à toa, o Brasil é o quinto país mais estressado do mundo, segundo dados do Relatório de Serviços de Saúde 2025 do Instituto Público de Pesquisa de Opinião do Setor (Ipsos, na sigla em francês). Durante a pesquisa, 70% dos brasileiros relataram ter se sentido, no ano anterior, tão estressados a ponto de não conseguirem (por uma ou várias vezes) lidar com suas responsabilidades. Em países como o Japão, no fim do ranking, essa porcentagem cai para 38%.

A solução para o acúmulo de estresse, do ponto de vista fisiológico, deveria ser simples: é preciso apenas que a pessoa descanse, encontrando passatempos prazerosos para a mente e relaxando o corpo. Esse é um direito básico previsto inclusive por lei em nosso país. A Constituição Federal, nos artigos 6 e 7, é categórica ao afirmar que todo brasileiro tem direito ao lazer e, se estiver empregado, deve ter semanalmente tempo para descanso.

O emprego, segundo normas previstas pelo direito do trabalho, não deve ocasionar ao trabalhador danos existenciais, ou seja, que prejudiquem seu convívio social, familiar e o tempo de lazer. Justamente por isso, em maio, uma atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) — que estabelece, no Brasil, as diretrizes sobre segurança no trabalho — acrescentou os riscos psicossociais como risco ocupacional fiscalizável. Ou seja, garantir o descanso deixou de ser cortesia da empresa e passou a ser obrigação legal.

A importância do autocuidado e da saúde mental

Mas na prática, sabemos que não é assim que acontece e mesmo as pessoas desempregadas, quando falta rede de apoio, sobrecarregam-se de tal modo que entram no piloto automático, deixando quaisquer práticas de autocuidado para trás. Esse é um traço alarmante da nossa sociedade e que merece a atenção de todos. É preciso exigir de governos e empregadores condições básicas de descanso e lazer para todas as pessoas, pois essa é uma questão de saúde pública.

É o que defende Henrique Akiba, psicólogo, Doutor em neurociência pela USP e consultor no Instituto Ame Sua Mente. Essa instituição tem como foco a promoção de uma cultura de cuidado à saúde mental, tendo a educação como eixo estratégico: educar professores para que as crianças brasileiras cresçam conscientes da responsabilidade que elas têm com a saúde da própria mente. O Brasil, de acordo com o Instituto, precisa encontrar maneiras de priorizar a saúde mental em todos os âmbitos, por meio da conscientização da sociedade e construção de políticas públicas transversais.

Descansar a mente não deveria ser apenas um luxo. Assim como essas mães assumem o compromisso de cuidar de seus filhos, é preciso entender que a responsabilidade pelo autocuidado também é tão importante quanto o cuidado com a família”, alerta Henrique.

 

Infelizmente, o modo como a sociedade está organizada retira o descanso da posição de direito básico e o posiciona como privilégio. Nos atendimentos feitos pelo IC, Camila diz que é muito comum encontrar mães que quase não sabem o que é ter uma rotina leve. “Até quando a gente pergunta se a mulher tem esses momentos de repouso, vem aquele riso, do tipo: ‘Ah, tu tá me falando de uma coisa que é impossível para mim.’ Isso porque a falta de rede de apoio e condição financeira um pouco mais estruturada impede a possibilidade do descanso.”

O que acontece com o corpo que não descansa?

Quando não repousamos adequadamente, nossa mente fica com estresse acumulado, como uma fumaça que se acumula dentro de um carro quebrado. E como nosso corpo é um só, isso acaba nos afetando por inteiro, trazendo dores, irritações na pele, dificuldades cognitivas, comportamentais e socioemocionais. Além, é claro, de uma série de questões relacionadas à saúde mental, como depressão, transtorno de ansiedade e burnout. “A pessoa começa a ter dificuldade nos processos decisórios e na regulação emocional”, complementa Henrique.

“Em algum momento a conta chega, porque não tem como, né? Nós não somos máquinas. O corpo vai dando sinais de que precisa desestressar, porque é muito mais difícil descansar a mente do que as demais partes do corpo. Porque ainda que tu deite, a tua mente continua trabalhando”, diz a psicóloga do Instituto C.

Tenha momentos de lazer, mesmo que breves

De acordo com Henrique, há diferenças entre momentos de descanso mais passivos, como assistir TV ou mexer no celular, e atividades prazerosas que exercitam a mente e o corpo. E ambas são muito importantes! “Às vezes, deitar-se não é o suficiente para se recuperar de um cansaço mais severo”, diz. O lazer, então, aparece como uma maneira muito rica de cuidar da mente, diminuindo os níveis de estresse. É possível:

  • Praticar atividades físicas simples, caminhando por alguns minutos, ou subindo escadas;
  • Ler um livro;
  • Fazer caça-palavras ou alguma outra atividade manual;
  • Conversar com vizinhos;
  • Frequentar comunidades semanalmente, sejam elas religiosas ou não;
  • Tirar pausas de três minutos, ao longo do dia, para fechar os olhos e respirar;
  • Tomar um banho um pouco mais demorado;
  • Passar um hidratante no corpo;
  • Ter uma refeição completa sentada, mastigando direito.

Essas são algumas das maneiras possíveis de trazer prazer para a vida, mesmo em meio a tantas demandas. Afinal, não podemos deixar que o descanso seja um privilégio garantido apenas para as pessoas mais ricas.

A gente sabe que a sobrecarga é uma realidade e que muitas vezes falta rede de apoio. Mas o que é possível fazer dentro da rotina para trazer um pouquinho mais de descanso e evitar esse colapso?”, reflete Camila.

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O constante cuidado com quem cuida

cuidado com quem cuida

O cuidado sempre esteve no DNA do Instituto C, seja para com as famílias, as crianças ou com seus colaboradores e voluntários. A partir desse princípio, o instituto realiza encontros formais e presenciais com quem atua na instituição para escutar sugestões e necessidades do cuidador. “A gente trabalha com pessoas e para pessoas”, introduz Liliane Moura, assistente social institucional. 

Assim, Flávia Almeida, responsável pelo RH e administrativo, que faz o trabalho de gestão e integração das pessoas, Liliane e Nayara Oliveira, que têm como foco o desenvolvimento institucional, reuniram-se para pensar em estratégias de cuidados e ações de integração para os colaboradores. “Essas ações sempre existiram, mas passaram por alguns formatos diferentes ­– sempre com a intenção de integrar as equipes, contar as novidades dos projetos e oferecer capacitações em diversas áreas de atuação do Instituto”, explica Nayara.

Além dos encontros que fortalecem o clima organizacional, o instituto vem promovendo estratégias de cuidados mais focados na saúde mental dos colaboradores. Nayara conta que, no primeiro semestre deste ano, o Instituto C formou grupos de cuidado aos profissionais da linha de frente com o apoio de duas psicanalistas. Os encontros aconteceram em parceria com a Sociedade Brasileira de Psicanálise e tinham como objetivo trabalhar questões sensíveis que afetam muito o profissional, que tem uma escuta ativa e é exposto em seu dia a dia à histórias de violência, pobreza e situações que, se não cuidadas, podem desgastar muito sua saúde emocional. “A partir dessa primeira experiência, que contou com oito encontros de escuta em grupo e foi muito potente, entendemos também que precisamos de estratégias mais individuais de cuidado. E a partir dessa colheita, buscamos outras abordagens para cuidar de nossos profissionais”, explica.

Como no Instituto C nada acontece por acaso, quando o trio responsável pelas ações de integração e cuidado com os funcionários estava pensando nas ações individuais para ofertar internamente, os diretores do IC foram procurados por Tatiana Castro, que realizou uma doação no primeiro semestre do ano e quando foi conhecer pessoalmente o trabalho do Instituto, ficou encantada. Ela trabalha com Mindfullness e ofereceu gratuitamente um módulo de atenção plena, para todos colaboradores do Instituto C, que estão sendo realizados em parceria com Ana Oliveira.

“Essa oferta chegou em um momento perfeito. Ficamos muito felizes pois era exatamente o que estávamos buscando e pudemos oferecer para todos nossos colaboradores, tanto os que atuam na linha de frente, como para quem está nos bastidores”,  reforça Flávia. Assim, cada colaborador foi convidado a participar dos encontros de Mindfulness, que acontecerão em três momentos diferentes, para que todos sejam contemplados. 

Além das ações focadas no cuidado, o trio também é responsável pelas ações de integração entre os colaboradores, que acontecem presencialmente a cada dois meses. As ações são sempre diferentes, em espaços e formatos que valorizam o encontro entre todos, mas cada vez buscamos um objetivo. “Vemos com muita potência esses momentos de integração, uma vez que nossa equipe não trabalha fisicamente no mesmo espaço e achamos fundamental proporcionar momentos para que todos possam se conhecer. Sabemos o quanto isso faz a diferença para o nosso dia a dia e auxilia na troca de saberes constante entre os nossos profissionais”, finaliza Flávia.