Direitos

Educação promove a transformação social e leva mais autonomia para mães

É impossível falar sobre direitos sem falar também sobre educação, essa ferramenta tão potente que transforma realidades e nos possibilita ir mais longe. Mesmo com as dificuldades enfrentadas pelas populações mais vulneráveis, a educação segue sendo a forma mais eficaz de ampliar oportunidades e garantir o exercício pleno da cidadania.

Ainda caminhando para que a educação atinja a equidade, o Brasil tem conseguido bons resultados nos últimos anos. Em 2024, por exemplo, o país tinha uma taxa de analfabetismo de 5,3%, a menor da série histórica iniciada em 2016, e a proporção de pessoas de 25 anos ou mais que terminaram a educação básica obrigatória no país  chegou a 56,0% em 2024, também atingindo o menor percentual da série. Esse número é um indicativo de como os programas educacionais têm feito a diferença, mas também nos faz pensar sobre as mudanças que ainda devem ser feitas para uma educação mais inclusiva e de qualidade.

Muitas famílias atendidas pelo IC têm demandas na educação que envolvem principalmente a inclusão nos ambientes escolares, mas muitas mães também encontraram nos estudos uma forma de cuidarem de si mesmas e pensar em novas possibilidades de vida. 

Mães que encontraram um caminho na educação

A Érica é mãe de duas meninas, e tem uma história na qual a educação também é protagonista. Ela não conseguiu concluir o ensino médio quando ainda era adolescente mas, já adulta, fez a conclusão por meio do EJA (Educação de Jovens e Adultos). Dali pra frente, não parou mais de estudar, concluiu a graduação em Direito ao mesmo tempo que estudava Processos Gerenciais e, hoje, faz pós-graduação na área de Departamento Pessoal e Recursos Humanos, junto com a terceira graduação em Segurança da Informação.

Com um currículo inspirador, ela conta que os programas de inclusão na educação como o EJA e o FIES (Financiamento Estudantil), foram muito importantes para que ela conseguisse continuar estudando. Hoje, ela agradece por ter feito todos os cursos que fez e que a levaram a ter uma vida melhor. “A educação, para mim, se resume a basicamente todas as conquistas que eu tenho”, reforça.

Érica na formatura de Direito.

 

A Danielly, também mãe de dois filhos, viu no EJA uma forma de concluir os estudos e, em 2026, vai terminar o ensino médio. Ela conta que a experiência tem sido transformadora, especialmente pelo contato com outros alunos, e valoriza muito essa fase da vida: “o estudo não é uma perda de tempo, e sim ganho de conhecimento”.

Mesmo enfrentando os desafios da maternidade, ela almeja fazer uma faculdade ou um curso técnico para adquirir mais conhecimento, algo que preza bastante. “A educação abre portas, portas de trabalhos, conhecimentos, educação, cursos profissionalizantes e até mesmo uma faculdade”, pontua.

Danielly (de amarelo) e os colegas do EJA.

Sendo duas mães atípicas, a Érica e a Danielly passaram por dificuldades semelhantes na jornada educacional. Ambas tiveram que conciliar a escola e a faculdade com os cuidados com os filhos e, felizmente, puderam contar com uma rede de apoio. Mas facilidades como o ensino noturno e a educação a distância (EAD) também foram importantes para que elas continuassem estudando.

As duas valorizam muito os programas que possibilitaram as oportunidades de estudo para elas. E consideram que deveriam criar mais projetos de permanência, para que as mães consigam estudar sem enfrentar tantas barreiras.

Políticas públicas devem garantir a equidade

Garantir que a educação seja de qualidade para todos é, sobretudo, um dever do Estado. No Instituto C, apoiamos as famílias para que seus direitos educacionais sejam respeitados — da acessibilidade escolar ao transporte adequado. Cada política pública é uma forma de garantir que todos consigam aprender. “Elas reduzem barreiras estruturais, fortalecem a permanência escolar e promovem equidade, tornando possível que todos tenham acesso a oportunidades de aprendizado e desenvolvimento integral”, explica Fabiana Ribeiro, pedagoga do Instituto C. 

Organizações da sociedade civil e a própria comunidade também são fortes aliadas para que a educação seja plena. Todos devem atuar como uma extensão da escola, enfrentando as vulnerabilidades emocionais, psicológicas e socioeconômicas que afetam crianças e adolescentes. Quando esse esforço é articulado ao Sistema de Garantia de Direitos, a rede de proteção e apoio se fortalece, criando condições para que a escola possa se dedicar plenamente à sua missão principal: promover o ensino e a aprendizagem de qualidade.

Lualinda Toledo, pedagoga e supervisora técnica do IC, reforça o quanto devemos nos atentar a educação que queremos conquistar enquanto sociedade: “a educação que temos está distante da educação que desejamos. Se não valorizarmos o que já foi construído e não lutarmos pelo que desejamos, jamais alcançaremos, nem como sociedade, nem como indivíduos”.

Programas de acesso à educação

Vale também reforçarmos os programas de continuidade e ingresso à educação já em andamento no Brasil, e que tem feito muita diferença na vida da população. Vamos conhecer alguns deles:

A educação no IC

Para as mães que estudam, como a Érica e a Danielly, essa é uma forma de ter também mais autonomia financeira e também de conhecer mais os  próprios direitos e deveres. Elas se tornam também uma referência para os filhos, e contam que não deixam de incentivá-los a estudar e aprender a cada dia mais. 

No Instituto C, as áreas de pedagogia e geração de renda são as que mais atuam no contato com as mães para que elas possam seguir suas jornadas nos estudos e também conseguir que os filhos estudem com dignidade. “A área de pedagogia fortalece a participação das famílias na vida escolar, garante acesso a oportunidades de desenvolvimento integral e faz da educação um instrumento de inclusão, cidadania e transformação social”, reforça Fabiana.

“Orientamos e encaminhamos a família, realizando, quando necessário, contato com a escola, órgãos públicos e demais serviços da rede para auxiliar na efetivação dos direitos. Fortalecer, orientar e acolher  as famílias é o principal objetivo do nosso trabalho”, conclui Lualinda.

Direitos

Saúde mental além do indivíduo: a importância da justiça social no cuidado

Estamos no Janeiro Branco, momento do ano em que focamos nossos esforços para falar sobre os cuidados com a saúde mental, tema tão importante para a população. Mas não é possível falar sobre saúde mental sem citar também a justiça social, esse fator essencial para que a gente entenda o que afeta a vida das populações mais vulneráveis. 

O bem-estar das pessoas depende de diversos fatores além do aspecto psicológico e emocional, ele é afetado também pelas condições de vida que impactam o dia a dia de alguém, como os aspectos sociais, ambientais e econômicos. Um relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) aponta que a pobreza eleva em até 3 vezes mais o risco do surgimento de ansiedade e depressão, e esse é só um dos exemplos dessa relação entre justiça social e saúde mental. 

Dessa forma, questões como desigualdade social, de gênero e localização, formam barreiras que impedem que a saúde mental seja cuidada com a atenção que merece. No Instituto C, oferecemos apoio psicossocial a diversas famílias, em sua maioria lideradas por mães, que estão entre os grupos que mais enfrentam demandas relacionadas a essa a saúde mental. Nove em cada dez mães brasileiras sofrem de “burnout parental” pelo acúmulo de tarefas e pela falta de rede de apoio, de acordo com uma pesquisa da Kiddle Pass em parceria com a B2Mamy.

No nosso dia a dia, vemos o quanto os fatores sociais afetam a saúde mental das pessoas e devemos dar mais atenção a isso. “As desigualdades sociais não apenas aumentam o risco de adoecimento mental, mas também limitam o acesso ao cuidado”, ressalta Isabella Zambelli, psicóloga do IC.

Como as desigualdades estão ligadas à saúde mental?

Desigualdades caracterizadas pela raça, gênero, classe social e orientação sexual são algumas das que afetam diretamente a população e o acesso a cuidados com a saúde mental. Preconceitos como o racismo, por exemplo, que expõe a população negra a transtornos mentais, impacta diretamente a saúde mental por meio da exclusão social e violências sofridas por essa parcela da população.  

Já as mulheres, especialmente as mães, enfrentam uma sobrecarga de afazeres e pela rotina dupla, em alguns momentos solitária, de cuidar dos filhos, trabalho e casa. A Suellen Claudino, também psicóloga do Instituto C, atende diversas mulheres que se encaixam nesse cenário, e vê de perto o quanto elas são negligenciadas: “mãe solo tem que cuidar da casa, tem que cuidar dos filhos, tem que trabalhar para resolver o financeiro da família […] Muitas vezes ela não consegue cuidar da sua saúde mental, e aí acaba sendo subestimada por conta da sobrecarga”, pontua.

As desigualdades nos territórios e de classe social também dificultam o acesso à informação sobre serviços de atendimento psicológico, e até mesmo a chegada até os equipamentos de saúde. 

Determinantes sociais ainda são subestimados

Apesar de entender que as desigualdades agravam questões de saúde mental, ainda estamos caminhando para que as políticas públicas sejam trabalhadas reconhecendo esses fatores sociais. Por isso, políticas de redução de desigualdade, como transferência de renda, política de acesso à educação e moradia, têm um impacto positivo na saúde mental da população.

O Instituto Cactus, organização que atua na promoção da saúde mental, já tem feito materiais de apoio que viabilizam os cuidados psicológicos levando em conta os determinantes sociais. Mariana Rae, especialista em saúde mental  do instituto, entende que não dá para falar sobre saúde mental sem abordar a justiça social. “A justiça social não é um tema paralelo à saúde mental, é uma parte constitutiva do cuidado. E ignorar isso reduz as possibilidades de prevenção e promoção da saúde, e acaba deslocando para o indivíduo a responsabilidade por sofrimentos que, em grande medida, são socialmente produzidos”, explica.

A psicóloga do IC, Isabela, também explica que em muitos contextos o sofrimento psíquico ainda é analisado somente por meio do viés biológico e individual, resultando na medicalização excessiva e excluindo as condições sociais que produzem o sofrimento apresentado. 

Para ela, os serviços  de saúde mental ainda não estão preparados para lidar com diversidade cultural e territorial, pois tendem a seguir modelos padronizados de atendimento. Isso, por fim, acaba ecoando no distanciamento entre os profissionais e a população, negligenciando e estigmatizando ainda mais a saúde mental. 

Serviços de saúde mental no SUS 

Na garantia do direito constitucional à saúde, é também incluso o cuidado à saúde mental. E esse é um dever do Estado brasileiro, que precisa oferecer condições dignas de cuidado para toda a população. No Brasil, os atendimentos à questões ligadas à saúde mental são coordenados pela Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que está dentro do SUS e integra os serviços que atendem pessoas com sofrimento mental ou que enfrentam problemas com uso prejudicial de álcool e outras drogas.

São essas políticas públicas que fortalecem e devem ser preservadas para os cuidados com a saúde mental dos brasileiros. “A implementação de políticas de saúde mental é atravessada por diferentes entendimentos sobre o que é o cuidado, o sofrimento psíquico e o papel do Estado nisso. E essas disputas acabam influenciando prioridades, os modelos de atenção e a qualidade do cuidado ofertado nos territórios”, pontua Mariana Rae. 

Hoje, o RAPS reúne diferentes serviços como: Atenção Primária à Saúde/UBS, Centros de Convivência e Cultura (CECO), Consultório na Rua, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Leito de Saúde Mental em Hospital Geral, Programa Volta para Casa (PVC), SAMU 192, Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), Unidades de Acolhimento (UA) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA 24h).

“Essas são políticas já existentes e que valem o incentivo de capacitação e aprimoramento aos profissionais, para que não ocorra a reprodução de padrões excludentes, discriminatórios. E que a compreensão de sujeito se modifique ao ponto que se possa olhar de um viés que integre todos os fatores da vida, não apenas a repetição de um viés clínico elitizado”, reforça Isabella. 

 

Mesmo com as dificuldades enfrentadas pelo sistema público, o Brasil ainda se destaca com serviços como o CAPS, que enfrenta alta demanda, mas consegue atender a população. O CAPS é um sistema muito completo, que conta com equipes multiprofissionais como médicos, psicólogos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, enfermeiros, entre outros, que oferecem cuidado contínuo, acompanhamento clínico e apoio psicossocial aos usuários e familiares. Ele é reconhecido entre outros países como um modelo inovador e humanizado de saúde mental baseado na comunidade, e um bom exemplo de como as políticas públicas são indispensáveis.  

Como podemos atuar na promoção da saúde mental

Para reforçar os cuidados com a saúde mental, organizações como o Instituto C, que apoia famílias em vulnerabilidade social também na área de psicossocial, e o Instituto Cactus, que busca ampliar e qualificar o ecossistema da saúde mental no Brasil, são fundamentais para apoiar a população, mas a sociedade também tem um papel importante nessa missão. O primeiro passo é desestigmatizar a saúde mental e promover discussões sobre o tema.

“É fundamental que existam espaços de convivência que permitam às pessoas ampliar suas trocas, tanto com o que já conhecem quanto com o que é diferente. Esse contato ajuda a compreender que as realidades não são iguais e que não é possível aplicar um único olhar a questões complexas como a saúde mental.”, reforça Mariana.

Para Isabella, a comunidade deve funcionar como um espaço de acolhimento, funcionando com uma rede de apoio para reduzir o isolamento e combate estigmas por meio de práticas coletivas e culturais. “O território, além de espaço físico, é social e simbólico, podendo concentrar desigualdades, mas também força comunitária e proteção cultural”.

Compartilhar informação também é uma tarefa importante que devemos fazer com frequência. Suellen explica que essa é uma das formas mais eficientes de falar sobre saúde mental e incentivar as pessoas a cuidar dela. “Assim, a gente vai ampliando as informações, além de deixar as pessoas cientes dos seus direitos”, reforça. 

Como conseguir ajuda?

De forma gratuita no SUS

  1. Unidade Básica de Saúde (UBS): ir à UBS mais próxima, onde  clínico geral pode avaliar sua situação e encaminhá-lo para um psicólogo ou psiquiatra da rede, de acordo com a necessidade.
  2. Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): serviços especializados para transtornos mentais. Existem vários tipos de CAPS e o acesso pode ser direto ou por encaminhamento.
  3. Clínicas-Escola: universidades com cursos de Psicologia que oferecem atendimento gratuito ou a preços simbólicos, com alunos supervisionados por professores. 

Para urgência ou momentos de crises:

  • Centro de Valorização da Vida (CVV): ligue 188 ou acesse o chat no site (cvv.org.br).
  • SAMU (192): para urgências/emergências psiquiátricas ou ameaças de suicídio.
  • Bombeiros (193): em casos de resgate para tentativas de suicídio, acidentes graves ou apoio psicológico em situações de salvamento.
  • Polícia (190): se houver agressividade, violência ou ameaças. 

No Mapa da Saúde Mental também é possível consultar e encontrar locais para apoio psicológico próximo de sua localização.

Institucional

2025: um ano de sonhos realizados, novos caminhos e expansão do cuidado

O ano de 2025 nos trouxe muitas surpresas e ficará marcado na nossa memória. O IC alcançou voos sonhados há muito tempo e, com isso, o cuidado chegou a 2.490 pessoas, impactando diretamente 1.279 crianças e adolescentes. Ao longo do ano, nos preparamos, reestruturamos nosso trabalho e fortalecemos processos internos para sustentar um crescimento que já se anunciava necessário.

Esse movimento exigiu amadurecimento institucional e trouxe desafios importantes, mas também abriu caminhos para irmos mais longe. Para quem esteve na linha de frente dessas mudanças, como o nosso diretor administrativo Diego Schultz, foi possível acompanhar de perto os impactos no dia a dia. “Foram meses que exigiram resiliência, flexibilidade e muita capacidade de adaptação. Apesar — e por causa — desses desafios, 2025 também foi um ano de muito trabalho, dedicação e crescimento”, reforça.

Com as transformações, passamos a olhar para o nosso trabalho sob novas perspectivas. Atuamos com cuidado e garantia de direitos em diferentes frentes, o que nos levou a reavaliar a metodologia, avançar no uso de indicadores e implementar novas formas de acompanhar a evolução das famílias. Esse processo foi fundamental para que o IC estivesse preparado para ampliar sua atuação para além do território onde já estava consolidado.

Nesse contexto, compreendemos que nossa atuação se organiza em três frentes principais. O atendimento direto às famílias que participam das nossas atividades. A multiplicação da nossa metodologia junto a instituições que desejam qualificar suas práticas de cuidado. E a articulação voltada à incidência política e à produção de conhecimento. Essa clareza foi decisiva para sustentar as expansões que marcaram o ano.

Agora, para guardar com carinho as memórias de 2025, convidamos você a relembrar um pouco do que aconteceu por aqui.

Fortalecemos o cuidado

O cuidado faz parte do nosso DNA, e uma das formas de levarmos ele para a vida das pessoas é conversando com elas para entender suas demandas e, assim, ajudá-las a superar obstáculos. Ao todo, realizamos 4.022 atendimentos, que nos conectam com as famílias e criam vínculos para que a gente conheça mais profundamente cada uma delas.

Os atendimentos individuais possibilitam que a equipe técnica compreenda quais questões precisam de maior atenção em cada contexto, seja nas áreas de psicologia, empregabilidade, educação, nutrição ou acesso a direitos. “Cada encontro é uma oportunidade de construir vínculos, conhecer as famílias de perto e tratar os assuntos mais urgentes de forma personalizada. É assim que respeitamos a história de cada família, considerando suas vivências e singularidades”, explica Kátia Moreti, gerente de projetos do IC.

 

Já os atendimentos em grupo, por outro lado, trazem à tona discussões necessárias que fazem parte do dia a dia e são compartilhadas por muitas famílias, como saúde, acesso a equipamentos públicos, e até mesmo educação financeira. Em alguns desses grupos, a atuação de voluntários foi fundamental para garantir um acompanhamento ainda mais especializado. “São momentos em que as pessoas, que muitas vezes estão passando pelas mesmas dificuldades, se conectam”, reforça Katia. 

A parceria com voluntários também se materializou em iniciativas como a formação de adolescentes pelo Projeto Vozes do Futuro, da empresa LLYC, voltada à orientação para o mercado de trabalho. Outro exemplo foram os atendimentos sobre educação financeira conduzidos por alunos da FEA USP, que apoiaram as famílias na organização das finanças a partir da realidade de cada uma.

Além disso, a articulação no território, especialmente no Polo Zona Norte, contribuiu para fortalecer o acesso das famílias aos serviços públicos da região. Realizamos reuniões periódicas com representantes da rede socioassistencial, promovendo debates sobre temas que atravessam a vida dos moradores, e ainda participamos de eventos como o Maio Laranja, de enfrentamento ao abuso sexual infantil.

Muitas dessas conquistas também foram possíveis graças aos voluntários que dedicam tempo e talento para ampliar nosso alcance. Em 2025, além das frentes já consolidadas, como o apoio na brinquedoteca e o trabalho com a Nota Fiscal Paulista, contamos com profissionais da nutrição atuando no tema da seletividade alimentar e com apoio jurídico para orientação de casos específicos. Esse conjunto de saberes fortalece o cuidado oferecido a cada família.

Chegamos mais longe

Em 2025, o desejo de ampliar a atuação do IC ganhou forma. A expansão para novas cidades foi resultado de um processo cuidadoso de articulação, escuta e construção conjunta, sempre em diálogo com organizações locais e com a rede socioassistencial, para garantir que cada iniciativa fizesse sentido em seu território.

Em Taubaté, após anos de diálogo e mobilização de parceiros, iniciamos a atuação em parceria com o Projeto Hapet, que desenvolve ações psicossociais e pedagógicas com crianças e adolescentes. A partir dessa colaboração, passaremos a acompanhar as famílias atendidas pela organização, fortalecendo o cuidado de maneira integral. Atualmente, contamos com duas pessoas na equipe local e seguimos avançando na articulação com os equipamentos da rede. Os atendimentos têm início previsto para 2026, com a meta de acompanhar 100 famílias ao longo do ano.

Em Porto Alegre, a expansão acontece em parceria com o Instituto Mari Johannpeter, no bairro Restinga. O trabalho será voltado às famílias que já participam das atividades do Instituto Mari. As vagas já foram abertas e o processo de contratação começa em janeiro. O planejamento, o diagnóstico do território e os treinamentos serão realizados no início do ano, com previsão de início dos atendimentos entre março e abril. A meta é acompanhar 100 famílias até o final de 2026.

Em São Paulo, a Cyrela apostou na metodologia do Instituto C para oferecer cuidado integral a seus funcionários e familiares. O projeto piloto foi estruturado em dois contextos complementares. Um deles envolveu o atendimento das famílias no Polo Zona Norte. O outro levou o cuidado diretamente para o ambiente de trabalho, com atendimentos em psicologia e serviço social realizados nas obras.

No Polo, a equipe técnica realizou atendimentos em assistência social, psicologia, pedagogia, geração de renda e nutrição, orientando cada família de acordo com suas necessidades. Esse trabalho fortaleceu vínculos e reafirmou o compromisso do projeto com acessibilidade, escuta e cuidado integral.

Já nas obras, foi implantado um modelo de cuidado psicossocial em contexto laboral. Nesse espaço, identificamos que muitos trabalhadores enfrentavam fragilidades emocionais, insegurança alimentar e dificuldades de acesso a direitos.

Ao todo, 496 pessoas foram impactadas, e realizamos encaminhamentos formais para serviços da rede pública de saúde, assistência social e do sistema de garantia de direitos. A experiência trouxe aprendizados importantes e reforçou nosso compromisso com um cuidado qualificado, capaz de gerar efeitos concretos na vida das pessoas.

Ocupamos espaços

Defender a infância também é parte central da nossa missão. Em 2025, atuamos para conscientizar sobre a importância do cuidado na primeira infância, garantindo que crianças cresçam em ambientes saudáveis e com plenas oportunidades de desenvolvimento. Em parceria com a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, participamos da campanha Agosto Verde, que promoveu debates relevantes sobre essa fase da vida. No mesmo período, relançamos uma cartilha voltada a responsáveis e profissionais do cuidado, abordando temas essenciais do desenvolvimento infantil.

Neste mesmo caminho, Vera Oliveira, diretora executiva do IC, participou do Programa de Liderança Executiva em Desenvolvimento da Primeira Infância, iniciativa do Núcleo Ciência pela Infância voltada à formação de lideranças comprometidas com a transformação das políticas públicas no Brasil. Vera também integrou o curso Global Leadership and Public Policy for the 21st Century, do programa Young Global Leaders, para o qual foi selecionada em 2024. A formação reuniu 65 líderes de diferentes setores, como política, terceiro setor e startups, para discutir os desafios da liderança no século 21 e como ampliar seu impacto no mundo.

Para o IC, estar presente nesses espaços é uma oportunidade de troca de conhecimento e experiências muito potente. “Esses ambientes em que a gente está como pessoa física, mas também como organização, favorecem muito na construção de políticas públicas mais favoráveis para o cidadão. E coloca o instituto num lugar de articulação com os outros órgãos, seja do governo ou de outras organizações”, reforça Vera. 

A Paloma Costa, nossa gerente de relacionamento institucional, também é uma pessoa que representa o IC na defesa dos direitos das crianças. Ela faz parte do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente e conta que fazer parte de um conselho dessa relevância faz a diferença. “Para o Instituto C, essa presença é essencial, amplia nossa visão, qualifica nossa atuação e nos coloca em um espaço onde podemos defender, com embasamento e legitimidade, as necessidades das famílias que atendemos”, conta.

Um ano de muitos sonhos realizados 

Pensar na trajetória do IC neste ano nos enche de orgulho, tivemos conquistas que sonhamos por muito tempo. Completamos 14 anos e, com isso, vieram muitos presentes. Um deles foi estar em rede nacional pela primeira vez no Domingão com Huck e pouco tempo depois receber a notícia de que tínhamos sido selecionados para o Criança Esperança. 

Conquistamos selos e certificações que reforçam a seriedade do nosso trabalho. Pela 9ª vez consecutiva estivemos entre as 100 Melhores ONGs do Brasil, fomos reconhecidos com o Selo Amigo da Pessoa com TEA, com o Selo de Direitos Humanos e também de Igualdade Racial, e cada um deles representa os pilares que trabalhamos durante todos esses anos. Além disso, também recebemos o CEBAS (Certificação de Entidades Beneficentes de Assistência Social), certificação que reconhece oficialmente o trabalho que realizamos nessa área. 

Muita coisa aconteceu, e tudo isso por consequência da dedicação de cada pessoa que se dedicou a apoiar o IC e as famílias que atendemos. Nesse momento, lembramos também da nossa equipe, parte essencial desse crescimento e de cada conquista alcançada. 

E em 2026, queremos continuar crescendo e colhendo os frutos deste ano tão valioso. Tem bastante coisa para acontecer, mas estamos preparados para essa nova fase e ansiosos para atender mais famílias e multiplicar o cuidado. 

Para encerrar esse ciclo especial, o diretor administrativo Diego Schultz deixou uma mensagem para a equipe. “Meu agradecimento sincero a essa equipe incrível, que se dedica todos os dias à missão do Instituto C e faz a organização acontecer, mesmo diante dos maiores desafios. É graças a esse compromisso coletivo que seguimos em frente, crescendo, aprendendo e ampliando nosso impacto”.

Para relembrar esse ano tão intenso e cheio de conquistas, assista ao nosso vídeo de 2025 e percorra com a gente os caminhos que o cuidado ajudou a transformar.

Direitos

Direito de sonhar nas periferias: barreiras sociais não devem impedir um sonho

O fim de um ano chega como um verdadeiro respiro e um lembrete de que devemos sonhar e renovar os nossos desejos para o próximo ciclo. Sonhar é como um combustível para que a gente continue acreditando que a vida pode nos trazer coisas boas. Mas para quem vive nas periferias, ter essa perspectiva se torna mais difícil quando existem outras preocupações no caminho.

No Instituto C, nós trabalhamos em conjunto para que famílias periféricas possam continuar sonhando e também realizar esses desejos. É importante que elas não apenas sobrevivam em meio a correria do dia a dia, mas também consigam idealizar e conquistar o que querem, e com conhecimento sobre direitos e direcionamento, esse caminho fica menos tortuoso. 

Mais acessibilidade, oportunidade de estudar e conquistar bens próprios fazem parte dos sonhos de muitas famílias. Pensando nisso e pela perspectiva de moradoras da periferia de São Paulo, a Thais Gomes e a Nicolie Barbosa, estudantes de Design da PUC-SP, foram atrás de responder a pergunta “o que é sonhar na periferia?” e conversaram com mães e crianças atendidas no Polo Zona Norte do IC, que nos emocionaram com cada resposta.

Como moradoras da periferia, Thais e Nicolie sempre viveram a dualidade de resistir e sonhar em meio ao caos, por isso surgiu a ideia de trazer esse tema para o trabalho. Nossa ideia de TCC surgiu de uma conversa que tivemos no ano passado, em que falamos sobre como éramos privilegiadas por poder sonhar mesmo diante da realidade em que crescemos, na periferia — e como muitas pessoas na mesma realidade não têm essa oportunidade”, conta Thais.

Para a Nicolie, estudante da PUC pelo Programa Universidade para Todos (PROUNI), essa foi uma forma de devolver a vontade de sonhar para quem mora em regiões periféricas. “Sempre digo que o lugar onde nasci, o Capão Redondo, é uma fábrica de sonhos. Somos uma juventude sonhadora que enxerga esperança além do nosso local de origem. Eu carrego essa esperança comigo, mesmo diante das adversidades que enfrentei até chegar a faculdade”, conta.

Como é sonhar com a mente em vários lugares?

Concretizar um sonho é um momento que deve ser celebrado, mas isso significa coisas diferentes para cada pessoa. Para muitas mães, o sonho tem o rosto dos filhos: mais segurança, educação, saúde e oportunidades que elas mesmas não tiveram. Mesmo nos momentos em que podem usar a imaginação de inúmeras formas, elas seguem pensando em sonhos que trariam bons momentos para todos ao seu redor. E para muitas crianças, o sonho é a janela por onde enxergam um mundo que vai além das ruas estreitas que conhecem.

Na periferia, sonhar não é apenas um exercício automático do dia a dia. É também uma construção feita aos pedaços: recortes de desejos e pequenas vitórias. Por isso, a atividade proposta pela Thais e pela Nicolie foi que as famílias fizessem colagens com imagens que representassem seus sonhos. Ali, a imaginação fluiu e surgiram recortes de viagens, carros, motos e até a cura de doenças que afligem suas vidas. 

Diante de uma rotina pesada, esse imaginário é o que ajuda a sustentar a esperança e cria novas possibilidades. Embora não devesse ser dessa forma, ter um tempo para sonhar às vezes se torna um privilégio, e é isso que fortalece as famílias em diferentes frentes: ajuda a enxergar caminhos onde a vida real ainda não chegou, cria autoestima e coloca a pessoa no centro da própria história, e reconstrói o sentido de futuro, que geralmente é desgastado pela falta de oportunidades.

Estudar: um sonho das crianças e dos adultos

A rotina corrida de cuidado com os filhos faz com que muitas mães não consigam tempo para realizar os próprios sonhos. Quando questionadas, muitas delas falaram sobre a vontade de concluir os estudos e cursar uma graduação, assim como a Vilma, que contou que esse é um de seus sonhos: “eu tenho muita vontade de fazer uma faculdade, mas nunca tive um empurrãozinho. Pra mim, é o maior sonho da minha vida”. 

No olhar das crianças, o sonho também se torna uma forma de pensar na mudança de vida para elas mesmas e para a família. Elas carregam em si a vontade de transformar a realidade a partir de uma profissão, e felizmente algumas delas já sabem o que faz seu coração bater mais forte: “salvar vidas. Ser médico”, esse é o sonho do Alan. 

Direito de sonhar

Na infância, a imaginação vai para lugares dos mais diversos, é nesse momento que o mundo se torna um lugar de infinitas possibilidades. Mas quando limitações são colocadas, é como se uma barreira fosse construída entre aquela criança e tudo que ela ainda pode ser

Assim como o Alan, muitas crianças sonham em seguir profissões que fazem seus olhos brilharem, mas atingir  esses sonhos só é possível quando existem condições para realizá-los. Educação de qualidade e um espaço seguro para se desenvolver plenamente é direito de toda criança, e devemos lutar para que isso se concretize.

Os adultos também precisam desse combustível para continuar acreditando que seus desejos podem se tornar realidade. “Eu acho que sonhar nunca é tarde”, reforça Cristiane, mostrando que para sonhar não tem idade certa, e precisa somente das possibilidades e oportunidades para que se torne real.

Sonhos que inspiram

Thais, que vive próximo da Brasilândia, onde fica nosso polo da Zona Norte, conta que a troca com as mães e com as crianças foi muito rica para ampliar sua perspectiva sobre sonhar, essa ação que, por mais simples que seja, também muda realidades. “Para mim, foi uma experiência muito transformadora: poder escutar as histórias de outras pessoas, perceber como o sonho é algo simples e otimista no olhar das crianças, e como ele também permanece vivo nas mães”, reforça.

Já a Nicolie, reconhece que seus sonhos são o que movem também a esperança, e contar os sonhos de outras pessoas é uma forma de ver a realidade das periferias de diferentes perspectivas. “Foi emocionante ver como todos olhavam para cima quando falavam de sonhos e como seus olhos brilhavam durante as colagens. O vídeo final é só um pedacinho do que foi essa experiência. O maior impacto está no que o processo trouxe para nós e para quem participou dele”, lembra a estudante.

Para conhecer mais sobre o trabalho da Thais e da Nicole e entender como os sonhos podem ser uma ponte importante para quem vive na periferia, clique aqui e assista o vídeo completo com os depoimentos de algumas mães e crianças atendidas pelo IC. 

Doação

Cultura de doação: brasileiros são sinônimos de generosidade, mas ainda podemos ir mais longe

A cultura de doação é uma construção coletiva que reúne valores e práticas que incentivam pessoas e empresas a contribuírem de forma voluntária para causas sociais, ambientais, culturais, entre outras. A consciência social e o engajamento coletivo, juntos, despertam a doação como um comportamento natural, fazendo com que esse gesto seja parte da nossa responsabilidade enquanto sociedade. 

Estamos entre os países mais generosos do mundo, e isso reflete o quanto os brasileiros estão sempre dispostos a ajudar uns aos outros. Uma pesquisa do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social – IDIS realizada em 2024 constatou que as doações individuais no Brasil chegaram a R$24,3 bilhões no ano passado – a pesquisa analisou o conceito de doação institucional em dinheiro feita para ONGs, campanhas ou projetos socioambientais.

Para João Paulo Vergueiro, diretor para América Latina e Caribe do Giving Tuesday, a população latina leva essa generosidade como algo cultural. “De forma geral, a nossa população latino-americana e caribenha é bastante generosa. A gente tem uma cultura de solidariedade entre as famílias, nas comunidades, nas igrejas, nos clubes, associações de bairro e escolas de samba”, reflete. 

Outros dados da pesquisa nos fazem entender o cenário das doações no Brasil, como por exemplo a média das doações individuais anuais, que passou de R$ 300 em 2022 para R$ 480 em 2024. Muitos doadores adotam uma postura estratégica: 83% buscam informações antes de contribuir e 86% afirmam escolher cuidadosamente as causas às quais desejam apoiar.

Barreiras que dificultam a doação

Para as organizações sociais que precisam de doações para conseguirem se manter, esse ainda é um cenário que precisa ser explorado para captar mais pessoas que queiram contribuir. Apesar dos desafios, João Paulo explica que as pessoas tendem a doar para causas que estejam mais próximas de suas vidas, como saúde, educação e infância, por exemplo. Ele reflete que essa “aproximação” com uma temática ajuda a sensibilizar os doadores. 

A pesquisa do IDIS ainda revela que as pessoas doam mais para situações emergenciais, como a tragédia no Rio Grande do Sul que aconteceu em 2024. Eventos extremos como esse mobilizaram metade da população brasileira para doar no ano passado, mas também acendeu uma desconfiança que já existe para quem doa. Com a quantidade de lugares recolhendo doações, ficou difícil distinguir o que era golpe e o que era sério, e essa é uma preocupação constante para os doadores, não somente nesses momentos. 

A Paloma Costa, gerente de relacionamento institucional do Instituto C, vê na prática o quanto esse receio ainda atrapalha as doações. “Essa desconfiança generalizada cria um bloqueio emocional e racional na hora de doar. Por isso, transparência, prestação de contas e comunicação clara são essenciais para reconstruir a confiança das pessoas”, explica.

Um outro obstáculo que precisa ser enfrentado é o senso de coletividade, que pode ser despertado levando para as pessoas esse desejo de contribuir para o desenvolvimento da sociedade, refletindo o quanto afeta a todos. Organizações como o IC tem feito isso por meio de conteúdos que levam informação e mostram o quanto o terceiro setor tem mudado a realidade de várias famílias.

Como incentivar a generosidade

Incentivar a doação como uma ação contínua ainda é um desafio, mas que pode ser trabalhado por meio de ações que mostrem o impacto delas na vida das pessoas que são beneficiadas. Doar é, também, compartilhar um privilégio que um dia foi oferecido aquela pessoa, para assim reduzir as desigualdades. 

O ideal é mostrar para uma pessoa que a doação pode fazer parte da sua vida, como uma prioridade mensal que será refletida em causas que têm impacto no bem-estar social. “É fundamental mostrar às pessoas que, ao contribuir, elas não estão apenas ajudando momentaneamente, mas ampliando o acesso a direitos que muitas pessoas não possuem, transformando solidariedade em cidadania ativa”, explica Paloma.

Uma das formas de integrar a doação no dia a dia das pessoas é por meio das leis de incentivo fiscais como a doação de parte do Imposto de Renda a projetos esportivos, sociais e culturais. Ou também por iniciativas como a Nota Fiscal Paulista, que pode ser doada a organizações cadastradas no programa. Tornar público o conhecimento sobre iniciativas desse tipo é uma maneira de incentivar a doação.

Doar faz bem pra todo mundo 

A doação faz bem de diversas formas, mas para o doador também pode ser uma mudança de perspectiva. “O ato de doar preenche a pessoa que doa porque ela sabe que está compartilhando com outras pessoas aquela responsabilidade de fazer a diferença na sociedade”, reflete João Paulo. 

Em inglês, a expressão “give back” define bem o sentimento de devolver à sociedade o que um dia alguém recebeu. Em português, podemos dizer que esse sentimento se equivale a um sentimento de gratidão por ter a chance de impactar positivamente a vida de pessoas e instituições que precisam de cuidados. 

O ato de doar, de forma geral,  produz um sentimento de satisfação e de felicidade, como é comprovado por pesquisas. “A doação tende a fazer com que as pessoas se sintam mais em paz consigo mesmas e com a sociedade que elas entendem que elas estão fazendo a parte delas para contribuir para um mundo melhor”, diz João.

Dia de Doar 

O Dia de Doar é uma iniciativa global que promove a generosidade e a cultura de doação nos países. Neste ano, o dia escolhido é 2 de dezembro, e é nessa data que organizações e pessoas da sociedade civil se mobilizam para arrecadar doações, seja para causas específicas ou ONGs que trabalham temáticas diversas. 

João Paulo é um dos pioneiros do Dia de Doar no Brasil. Ele esteve na construção do movimento no país e hoje reconhece que estamos entre os países onde a data mais se disseminou. As campanhas funcionam de diferentes formas, por meio das próprias organizações ou até mesmo campanhas organizadas pelas próprias comunidades. O desafio, agora, é fazer com que esse dia chegue a mais pessoas e “fure a bolha” do terceiro setor. 

A mobilização coletiva já tem feito a diferença, e vai continuar fazendo ainda mais. “O dia de doar é sobre generosidade, sobre fazer o bem. Então, toda forma, toda expressão de generosidade é válida no dia de doar, e você pode falar sobre o que você quiser, desde que seja fazer o bem” reforça João.

Para disseminar o bem, nesse dia de doar te convidamos a ajudar o Instituto C a hackear as desigualdades e multiplicar o cuidado para centenas de famílias. No IC, hackeamos e tiramos do caminho tudo aquilo que impede que famílias em vulnerabilidade social alcancem plena cidadania, como a falta de acesso à informação sobre direitos, ausência de rede de apoio e a falta de autoestima. Clique no botão abaixo e saiba como doar.

 

História de Mulheres

Empoderamento para as mulheres: empreendedorismo nas periferias tem transformado a vida de muitas mães

O empreendedorismo entre as mulheres da periferia cresce cada vez mais e mostra o quanto esse formato de trabalho tem transformado as famílias. O público feminino aposta em diferentes áreas para criar seu próprio negócio, especialmente nas regiões em que vivem, onde as demandas por serviços passam pelos próprios bairros. Só em 2024, as mulheres representavam 34% de quem empreendia em setores como serviços, comércio e tecnologia no país todo. Já nas favelas, as mulheres lideram 60% dos empreendimentos, de acordo com pesquisa do Investe Favela.  

Para as mães, o empreendedorismo traz a oportunidade de serem donas do próprio horário de trabalho, o que é importante especialmente para as que cuidam de crianças atípicas. No Instituto C, muitas mães empreendedoras dividem a vida entre o cuidado com os filhos e o trabalho de forma autônoma. Apesar dos obstáculos, elas conquistam a própria independência financeira e também resgatam a autoestima a partir do que fazem em casa. Com isso, a família também se torna mais fortalecida a partir dos acessos que a mãe passa a ter. 

Desafios de empreender nas periferias

Mesmo com o crescimento do empreendedorismo entre as mulheres das periferias, muitas delas ainda encontram barreiras que dificultam o crescimento profissional. Segundo nossas analistas de renda Carol e Giovana, uma das maiores dificuldades enfrentadas por elas é o acesso limitado a recursos financeiros, principalmente para as empreendedoras nas áreas de alimentos e beleza, que precisam investir para ter resultados positivos. 

A falta de acesso ao conhecimento necessário para regularizar um negócio também é algo que impede o crescimento dessas mulheres. Por isso, um dos nossos trabalhos é levar informação para que elas conheçam seus direitos enquanto empreendedoras, seja por meio da abertura do MEI ou outras iniciativas do poder público. 

Além disso, em áreas periféricas o empreendedorismo é muito presente, o que reflete também em uma competição acirrada entre os empreendedores. Isso exige que as mulheres busquem novas formas de desenvolver seus trabalhos para se destacar nessa “vitrine” de negócios e conseguir atingir seus públicos. 

Outro ponto importante a ser lembrado é que muitas mães empreendem por necessidade, nem sempre por vontade, e isso faz com que elas não se enxerguem como empreendedoras. Essa necessidade vem de um lugar onde elas precisam de uma renda e ao mesmo tempo de flexibilidade. “Não é de um viés empreendedor, é de um viés da vulnerabilidade”, explica Giovana. 

Geração de renda no IC

Nossa área de renda é a responsável por ouvir essas mães empreendedoras, e muitas histórias boas passam por aqui. Os negócios vão desde a venda de bolos, até a criação de brinquedos pedagógicos por meio do artesanato e a decoração de unhas como nail designer. Muitas dessas mulheres conseguem transformar um hobby em um trabalho remunerado. 

“O trabalho da renda no Instituto C é levantar com a família estratégias e possibilidades sobre saúde financeira e ampliação de renda”, explica Giovana Santos, analista de renda do Instituto. Com a orientação das nossas técnicas, as mães compartilham suas experiências e também recebem orientação sobre a relação do MEI, benefícios de transferência de renda, organização e ingresso em cursos técnicos e ensino superior.

Para a Carol Fontes, também analista de renda do IC, essa vontade de empreender e se mobilizar para fazer a sua própria renda, é por conta das responsabilidades que elas têm de uma rotina que elas precisam de flexibilidade. Isso porque essas mulheres muitas das vezes são as únicas pessoas que podem cuidar de outras pessoas das suas famílias.

Mães que viram no empreendedorismo uma oportunidade

A Nathalia Stephanie mora com a filha e é um exemplo de mulher que uniu um sonho com o trabalho. Ela fez um curso de manicure no IC (em parceria com a Acciona) e, a partir dele, despertou um olhar para essa área que hoje é a sua paixão e também sua fonte de renda. Em meio a um mercado com muitas profissionais, a Nathalia precisou buscar um diferencial para se conectar com as clientes, que foi por meio do atendimento à domicílio. Assim, ela conseguiu chegar a mais clientes no bairro em que mora, até o momento que está hoje, onde atende no próprio estúdio em sua casa e também dá cursos. 

Ao elevar a autoestima de outras mulheres, a Nath enxergou na área da beleza uma possibilidade de transformar a vida de sua família e, assim, também mudar a forma que ela se enxerga como mulher. “Às vezes a gente pensa que é uma unha, mas é sempre mais que isso. A minha profissão me deu fé e esperança, e eu levo isso pras minhas clientes”, reforça.

Assim como Nathalia, a Fátima Regina também mora com a filha e encontrou no cuidado com a beleza das mulheres uma forma de empreender como cabeleireira. Mas, durante a pandemia ela se viu em um cenário onde precisava se reinventar, já que os salões precisaram fechar e o trabalho foi diminuindo. Foi assim que ela começou um novo negócio: a venda de livros por meio de uma plataforma digital. 

A Fátima sempre gostou de ler e, como os irmãos também empreendem vendendo livros, ela pensou que essa seria uma ótima opção para complementar a renda. Hoje, ela tem um acervo com cerca de 2.000 livros – todos recebidos por doação – e considera que começar a vender livros trouxe para ela novas perspectivas de conhecimento, já que ela precisa saber um pouco de cada assunto. 

Novas perspectivas de empreendedorismo 

O conhecimento e a vontade de criar coisas novas foi o que motivou a Vanessa Ferreira a fazer do artesanato sua fonte de renda. Vanessa é mãe de dois filhos e sempre gostou de usar a criatividade para fazer itens que vão desde bolos decorativos até brinquedos pedagógicos. Em seu ateliê em casa, ela consegue conciliar o trabalho com a criação dos pequenos. 

Além dos brinquedos, hoje a Vanessa também vende mini donuts que ajudam a ter uma renda extra para contar. Ela considera que fazer as artes também é uma forma de ocupar a mente com algo que gosta e, em contrapartida, também consegue cuidar mais de si. “Nessa hora [que estou trabalhando] não é só a Vanessa mãe das crianças, também consigo ser eu, ter minha utilidade e colocar para fora as ideias”, explica. 

Já a Natália Alves é mãe de duas meninas e empreende junto com o marido. Eles vendem roupas e ela também apostou na confecção de bolos e doces para conseguir criar as filhas. Ela sempre gostou de empreendedorismo e diz que sonha em abrir o próprio negócio um dia, para assim conseguir crescer ainda mais. 

As vendas fazem parte da sua vida há muitos anos, e hoje ajuda também a ter mais flexibilidade para cuidar das crianças e até mesmo levá-las junto nos dias em que é necessário. No final, as mães atípicas precisam de um trabalho que se adequa à rotina delas e das crianças. 

“A sensação é de empoderamento”

O empreendedorismo também tem fortalecido entre essas mães e criado um senso de comunidade que vai além dos negócios. No nosso dia a dia, vemos o quanto elas conseguem trocar experiências, construir uma rede onde consigam se acolher para, assim, crescer ainda mais enquanto empreendedoras. 

No Instituto C, muitas mães atendidas lidam com questões na maternidade que envolvem a saúde dos filhos, e acabam se deixando de lado em meio a correria do dia a dia. Ter o próprio negócio dá a elas uma visão de mundo diferente e as faz enxergarem a si mesmas para além dos filhos, mas também como mulheres que também precisam de cuidado. “Muitas das mães atípicas não tem companheiro, então precisam acreditar que o potencial delas vai além e que elas podem viver”, reforça Natalia.

Mesmo com as dificuldades, as mulheres empreendedoras se sentem realizadas e acreditam que esse é um caminho possível para muitas mães. A Fátima reforça isso: “empreender é um abismo, mas para mim é mais importante ter a minha liberdade de tempo e de poder fazer as coisas quando eu quero. Não é fácil, mas vale a pena o custo”. 

Institucional

14 anos de Instituto C: uma história de transformação escrita por muitas mãos

Neste mês de outubro, o Instituto C celebra 14 anos de uma trajetória que surgiu a partir da vontade de impactar vidas por meio da transformação social. Em 2011, esse projeto ganhou forma com os recursos que tinha na época e, no ano seguinte, começaram os atendimentos, em uma garagem no bairro da Santa Cecília. Hoje, o Instituto já atendeu mais de 6 mil famílias, com trabalho de cuidado integral, que acontece por meio de atendimentos nas áreas áreas de nutrição, psicologia, geração de renda, pedagogia e na garantia de direitos. 

Ao longo desses anos, o Instituto passou por diversas transformações – ampliou projetos, fortaleceu parcerias, enfrentou desafios e foi se reinventando todos os dias para continuar atuando com impacto e responsabilidade. E, durante todo esse tempo, mais de 24 mil pessoas tiveram suas vidas transformadas pelo trabalho da nossa equipe. Da mesma forma, cada pessoa que trabalha aqui também foi impactada pelo dia a dia com as famílias.

Quem está aqui há um tempo pôde acompanhar essa trajetória de perto, e tem muita coisa pra contar. Por isso, trouxemos algumas pessoas para falar sobre esse impacto e compartilhar momentos marcantes que já viveram com o IC e como suas histórias se entrelaçam.

De um sonho pessoal a uma causa coletiva

Olhar para trás e ver tudo que o Instituto C construiu desperta orgulho, especialmente em quem plantou a primeira semente dessa história. Vera Oliveira, fundadora e diretora executiva do IC, relembra com emoção o dia em que abriu as portas da garagem e deu o primeiro passo para transformar esse sonho em realidade.

A fundadora do IC lembra que, naquele dia, pôde contar com a presença da família e de amigos queridos que ouviram suas dúvidas durante o processo: “Foi muito especial, olhar tanta gente importante pra mim, ali reunidas, acreditando em um sonho, e eu muito feliz pelo início de um novo caminho que representava a realização de um projeto muito desejado, do coração mesmo… Eu ainda não tinha ideia de onde aquilo iria chegar, mas me completava saber que eu estava contribuindo para um mundo melhor”, conta. 

Hoje, ela reflete sobre o quanto essa jornada também transformou sua própria vida: “Eu era uma menina quando o Instituto C começou, e hoje eu tenho minha família, outra perspectiva em relação ao Instituto e, de fato, é um sonho que se torna cada vez mais possível”, reflete Vera.

Para ela, é difícil destacar um único momento que lhe marcou ao longo desses 14 anos. Entre os marcos que guarda com carinho, estão diferentes momentos em que o Instituto alçou novos voos, como a mudança para a sede na Vila Buarque, a primeira vez que o Instituto C recebeu o prêmio Melhores ONGs e a expansão para a Zona Norte de São Paulo. Cada um desses momentos fortaleceu o propósito do IC e ampliou o acesso ao cuidado em territórios que ainda enfrentam dificuldades para acessar políticas públicas.

Um caminho trilhado por quem vive a prática do cuidado integral 

Muitas das mudanças que aconteceram até aqui também se refletem na metodologia de atuação do Instituto. Para quem vive o dia a dia dos atendimentos, entende que tem algo que nunca muda: o foco no desenvolvimento, o trabalho em rede e a abordagem centrada na escuta ativa das famílias. Pilares que colocaram o IC entre as 100 melhores ONGs do Brasil por 8 anos consecutivos.

Kátia Moretti é um exemplo de profissional que cresceu com o Instituto. Ela chegou como estagiária de psicologia na área de renda e inclusão produtiva, e hoje é gerente de projetos, liderando as equipes técnicas dos polos. Para ela, muitos momentos impactaram sua vida ao longo de 9 anos no IC, mas os grupos de encerramento – quando as famílias se despedem dos atendimentos – são sempre muito marcantes: “[nesses momentos] podemos ver o impacto mesmo do nosso trabalho na vida de cada uma dessas pessoas que passaram um tempo com a gente”, reflete.

O Instituto C tem uma equipe multidisciplinar dedicada aos atendimentos que acolhe cada história de forma única, como deve ser, para que as famílias alcancem sua autonomia. Kátia diz que esse cuidado individualizado é o que mais toca seu coração quando falamos do trabalho do Instituto, seja no trato com as famílias ou com a equipe técnica. Não é à toa que o C de cuidado também está no nosso nome. 

Trajetórias que se entrelaçam com o IC

Flávia Almeida, coordenadora administrativa, também é um exemplo de quem cresceu junto com o IC. Para ela, o Instituto é um lugar transformador e prazeroso de trabalhar, e fazer parte da equipe há tantos anos, desde que era estagiária, a fez enxergar com mais clareza as vulnerabilidades existentes na sociedade, especialmente no contexto de crianças que convivem com doenças crônicas e das mães atípicas.

Após tantos anos acompanhando o desenvolvimento da organização, o brilho nos olhos ainda segue com a Flávia, que sente orgulho de sua jornada. “Entrei como uma menina e hoje sou uma mulher, com muitas responsabilidades e a tarefa de liderar uma equipe composta por pessoas diferentes. A cada dia, aprendo mais, me torno mais madura e mais consciente do espaço que ocupo no IC”, conta.

Ela destaca que, ao olhar para sua trajetória no Instituto C, percebe que o impacto vai muito além da dimensão profissional e atinge também outras áreas de sua vida. Existe algo profundo no trabalho que realiza e nas relações que constrói diariamente com colegas de equipe. Sem perceber, o IC também se entrelaçou à sua vida pessoal. Durante sua trajetória no Instituto, ela se casou, conquistou a casa própria, comprou seu carro e teve sua filha, a quem hoje pode proporcionar uma vida melhor. Cada uma dessas conquistas também carrega a marca desse lugar que se tornou tão significativo.

Paloma Costa, gerente de relacionamento institucional, também destaca muitas conquistas pessoais que teve desde que chegou ao Instituto, onde encontrou um espaço de crescimento e estabilidade. Ela reflete que a expansão para a Zona Norte foi um momento feliz em sua vida. Filha de mãe solo, nascida e criada na região da Brasilândia, onde fica nosso polo, ela presenciou os esforços que a mãe fez para criar os três filhos com dignidade. 

“Participar da chegada do Instituto C à Brasilândia teve um significado tão especial. Foi como devolver à minha comunidade o cuidado que minha mãe e tantas outras mulheres nunca tiveram a chance de receber”, relembra Paloma.

Ela reflete o quanto uma rede de apoio como o IC é importante para tantas famílias – e como a ausência desse tipo de suporte impactou a vida de sua mãe enquanto ela e os irmãos ainda eram crianças. “Não existia um espaço como o Instituto C, que acolhe, orienta e apoia mulheres em suas múltiplas jornadas. Ver a minha mãe enfrentando tudo praticamente sozinha deixou marcas profundas em mim e moldou o que acredito ser transformação social”, conta.

O futuro que seguimos sonhando juntos

Muitas coisas mudaram e devem continuar se transformando, mas em datas como essa, os votos se renovam e passamos a ver um caminho de possibilidades à frente. Para Vera, o desejo para os próximos anos é que o Instituto C continue se consolidando como uma força relevante dentro da assistência social, sendo uma referência na pauta da intersetorialidade e do olhar para o indivíduo como estratégia real de combate à pobreza. 

Já Kátia, espera que o Instituto consiga alcançar ainda mais famílias e impactar a vida de mais pessoas por meio do fortalecimento dos polos já consolidados e também a expansão para novos territórios. Que possamos seguir apoiando famílias para que alcancem autonomia a longo prazo e, assim, transformar realidades de forma sustentável. Flávia compartilha do mesmo sentimento, com os votos de que o Instituto continue crescendo e aperfeiçoando a cada dia suas ações, para seguir transformando e gerando impacto social.

Paloma completa: “meu maior desejo é que esse trabalho possa alcançar ainda mais famílias, em um modelo financeiramente sustentável, e que, assim como eu, muitas pessoas tenham a oportunidade de realizar seus sonhos”.

Ao completar 14 anos, o Instituto C reafirma seu compromisso com o cuidado integral, o fortalecimento das famílias e a construção de caminhos sustentáveis de superação da pobreza.

Seguimos acreditando que o cuidado transforma — e que, juntos, podemos transformar ainda mais histórias. 

Direitos

As barreiras da desigualdade ainda impedem uma infância feliz, mas podemos mudar isso

Outubro é o mês das crianças, e gostaríamos muito de falar sobre as alegrias da infância durante seu desenvolvimento, mas a realidade ainda está distante de ser a ideal. Mesmo com o cenário que melhorou nos últimos anos, no Brasil, 28,8 milhões de crianças e adolescentes ainda vivem em pobreza multidimensional, e isso é resultado das desigualdades em diferentes áreas como saúde, educação e acesso a lazer, que afetam diretamente suas vidas. 

É nesse cenário que trabalhamos com centenas de famílias para que esse número diminua e mais crianças consigam crescer de forma saudável. Nayara Oliveira, psicóloga institucional do Instituto C, reforça que a organização se preocupa com o cuidado das crianças como um todo, passando também pelo bem estar dos cuidadores: “enfrentar as desigualdades na infância é cuidar de forma integral — das crianças, das famílias e, sobretudo, de quem cuida. Nosso trabalho parte da escuta sensível e do fortalecimento das cuidadoras principais, que são, em sua maioria, mães solo e avós que sustentam o cuidado cotidiano”, reforça.

Assim como o Instituto C, o ChildFund Brasil também atua com esse propósito de impulsionar vidas e diminuir as desigualdades. Mauricio Cunha, presidente executivo da organização, reflete o quanto a pobreza afeta a vida das crianças: “a infância é um período decisivo para o desenvolvimento físico, emocional e cognitivo, e a pobreza compromete esse processo de forma profunda e duradoura”.

Quem atende as crianças no dia a dia, consegue ter ainda mais dimensão do quanto as desigualdades afetam as diferentes áreas da vida delas. Renata Souza é psicóloga do IC, e explica como a falta de recursos pode afetar também o desenvolvimento cognitivo. “Muitas vezes, quando a gente fala de pobreza, são crianças que não têm acesso nem mesmo a escola, não têm acesso a um alimento… Ou seja, ela não vai conseguir se concentrar nos espaços que ela frequenta”, explica.

É preciso ouvir o que as crianças têm a dizer 

Uma das questões mais sensíveis em trabalhar com a realidade de crianças em situação de vulnerabilidade, é abordar tópicos que afetam suas vidas sem diminuir suas dores. Esse é um dos trabalhos que a Renata exerce, e ela conta que busca sempre adequar as temáticas à linguagem das crianças, para que elas consigam entender e também tirar suas dúvidas.

Para a Renata, nós, adultos, normalizamos muitas coisas e paramos de questionar, enquanto as crianças são bastante curiosas e sensíveis. Elas sabem o que é justo ou não, e entendem o que são os direitos e deveres. A psicóloga diz que em temas como desigualdade social, por exemplo, é importante abrir o diálogo e ouvir muitas vezes as histórias que elas têm para trazer a respeito delas ou dos colegas.

A educação também é, certamente, uma das ferramentas que nos ajudam a transformar realidades. O ChildFund entende que a educação, junto à proteção e ao apoio familiar amplia horizontes e prepara as crianças para romper ciclos de exclusão e vulnerabilidade. “A educação está presente em nossas metodologias não como um reforço escolar ou na aplicação formal, mas nas atividades de educação financeira, habilidades para a vida, no brincar e no incentivo e prática da leitura”, conta Maurício.

Tudo começa pelas políticas públicas

Apesar dos avanços que já tivemos quando falamos de políticas públicas para famílias em situação de vulnerabilidade social, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) para pessoas com deficiência,  ainda estamos caminhando em passos lentos para a erradicação da pobreza e a diminuição das desigualdades. 

O IC entende que alcançar os direitos é uma das formas de diminuir as barreiras encontradas pelas famílias. Nayara considera que avançamos muito na formulação de programas de proteção e transferência de renda, como por exemplo com a criação da Política Nacional de Cuidados, que promove a corresponsabilização social e entre homens e mulheres pela provisão de cuidados, consideradas as múltiplas desigualdades. Mas ainda é preciso investir na sustentabilidade e no financiamento contínuo das políticas de cuidado e proteção social, de modo que o cuidado deixe de ser uma sobrecarga privada e passe a ser uma infraestrutura pública.

Para o ChildFund, ações como o financiamento adequado de políticas voltadas à infância, especialmente em áreas rurais e periféricas, o fortalecimento da rede de proteção social, com foco na prevenção da violência física, psicológica, sexual e institucional, e no apoio às famílias, devem ser o foco para cuidar das infâncias.  

Além disso, o enfrentamento das desigualdades que afetam a infância só é possível quando as políticas públicas reconhecem o cuidado como um direito e uma responsabilidade coletiva.

A responsabilidade coletiva de proteger as crianças

Da mesma forma que o Instituto C e o Childfund Brasil atuam, muitas instituições também trabalham todos os dias para que as crianças consigam se desenvolver sem barreiras, mas com um esforço coletivo, essa missão fica um pouco mais leve. O Poder Público e as organizações sociais são ferramentas importantes para a redução das desigualdades na infância, mas a sociedade civil também é uma aliada necessária e indispensável para garantir os direitos das crianças. 

Neste mês das crianças, é importante reforçar o convite para que todos assumam um papel de linha de frente na defesa dos direitos das crianças, afinal, essa é uma responsabilidade coletiva. Essa mobilização pode começar a partir da escuta e participação das crianças e adolescentes nas discussões e da valorização da infância como prioridade. Somente assim faremos com que as próximas gerações vivam da melhor forma possível.

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Serviços IC

Rede socioassistencial: articulação dos equipamentos públicos com o terceiro setor fortalece os territórios

A garantia dos direitos sociais começa a partir das informações recebidas por cada pessoa, e isso está fortemente relacionado ao território ao qual ela pertence. São nesses lugares onde as pessoas enfrentam os desafios do dia a dia, constroem vínculos e também onde devem encontrar o apoio necessário para superar situações de vulnerabilidade. O Instituto C entende que a articulação entre a rede socioassistencial dos territórios é o que fortalece as famílias com orientações e atendimentos adequados. 

É importante entendermos que nenhum serviço atua sozinho e precisamos dessa integração para saber como orientar cada pessoa atendida de acordo com as necessidades delas e com o equipamento que pode atendê-la. Na Zona Norte, onde fica localizado um dos nossos polos, podemos ver na prática como isso funciona e tem feito a diferença. 

Na região da Brasilândia, o bairro mais populoso da Zona Norte, os reflexos da desigualdade e vulnerabilidade estão muito presentes, por isso o conjunto de CRAS, CREAS, UBSs, UPAs e organizações da sociedade civil trabalham coletivamente para suprir algumas demandas dos moradores. Afinal, todos têm um objetivo em comum:  garantir proteção social, saúde, inclusão e dignidade para as pessoas. 

Troca de experiências e aprendizado coletivo

A reunião de rede é um dos momentos de articulação entre os equipamentos e organizações, que possibilita discussões e reflexões importantes sobre temáticas que transpassam pelo trabalho dos agentes. Em uma das reuniões, que aconteceu no Instituto C em agosto, representantes de diversos equipamentos estiveram presentes, como Rogério Andrade, do Centro de Cidadania LGBTI+ Luana Barbosa dos Reis, que atende vítimas de LGBTfobia ou em vulnerabilidade.

Rogério refletiu sobre a importância de falar sobre as vivências em cada um dos equipamentos e como isso ajuda toda a rede a lidar com as demandas nos atendimentos: “as dores são muito similares nos diferentes equipamentos. É bom pensar quais estratégias podem ser compartilhadas no intuito de entender o que funciona no meu serviço que pode auxiliar os outros equipamentos a conduzirem as situações”.

Outra instituição que faz parte da rede e trabalha com os jovens é a Espro. O Luciano Duarte é articulador social e fala sobre esse momento de troca de experiências. “A articulação na rede é justamente pra gente fazer um trabalho coletivo com as famílias. E aí a gente vai conseguir mudar a realidade deles”, explica.

A potência da rede está, justamente, na forma como esses serviços dialogam. No Instituto C uma das nossas principais formas de guiar as famílias para a autonomia é fazendo com que elas tenham informação e conheçam os próprios direitos. E fazemos isso também por meio de encaminhamento para os serviços que trabalham as questões trazidas por elas. 

Construindo a relação de cuidado 

No Instituto C, a partir das nossas experiências, entendemos que a mudança social começa pela escuta e pelo acolhimento, para identificar demandas e articular com a rede executora das políticas públicas. Por isso, a integração entre os equipamentos não é apenas uma exigência técnica do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), mas também uma necessidade para que as políticas públicas estejam integradas e sejam efetivas na vida das pessoas.

“Quando nos abrimos para ouvir as pessoas, compreendemos suas histórias e necessidades. Por isso, o trabalho em rede com os equipamentos é um dos nossos pilares, porque, no fim, são essas conexões que permitem que as políticas públicas se tornem caminhos reais de transformação na vida de quem mais precisas”, explica Katia Moretti, gerente de projetos do IC.

No dia a dia de trabalho da nossa equipe técnica, eles conseguem notar a relevância de olhar para a rede de forma colaborativa. A Suellen Claudino, psicóloga do instituto, explica que quando a gente consegue trabalhar em conjunto, entrar em contato com o CRAS, com a UBS, com a escola e com os outros serviços de assistência, conseguimos nos tornar uma referência no território e o trabalho com a família fica muito mais eficaz.

Além disso, essa articulação coletiva e a escuta atenciosa também é o que ajuda a quebrar alguns medos e receios que as pessoas têm ao acessar os equipamentos. “As famílias, ao serem encaminhadas para os serviços de assistência, nem sempre são bem acolhidas, o que acaba criando uma espécie de barreira. Quando isso acontece, nosso papel é acompanhar essa família, orientar e dizer ‘pode ir lá, é um lugar seguro. Você será acolhida, será fortalecida, e nós estaremos trabalhando juntos’”, conta Suellen.

Quando CRAS, CREAS, CAPS, UBS, escolas, coletivos e lideranças locais se olham como parte de uma rede dinâmica e colaborativa, é possível construir caminhos mais efetivos para a proteção das famílias em situação de vulnerabilidade social. As mudanças só acontecem realmente quando são feitas em conjunto com o poder público, com a sociedade civil, e com a participação ativa de quem vive o território todos os dias.

Direitos

35 anos do SUS: referência no mundo, o sistema levou o direito à saúde para toda a população do Brasil 

Uma das políticas públicas que mais trazem orgulho para os brasileiros completa hoje 35 anos: o SUS. O Sistema Único de Saúde (SUS) é um dos maiores e mais complexos sistemas de saúde pública do mundo, e por meio dele os cidadãos que vivem no Brasil podem ter acesso à atenção integral à saúde, desde a gestação e ao longo de toda a vida.

Antes do SUS, a saúde ainda não era tratada como um direito de todos, e o sistema de saúde brasileiro não chegava a toda a população, excluindo uma parcela significativa dela. O acesso era limitado principalmente às pessoas que trabalhavam com carteira assinada, por meio do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS). Quem não contribuía para a previdência tinha acesso muito restrito à saúde, sendo feito por meio de entidades filantrópicas.

Foi somente a partir do início da redemocratização e da Constituição de 1988 que passou-se a olhar a saúde com a importância devida. O artigo 196 da Constituição diz que “A saúde é direito de todos e dever do Estado”, e esse momento foi um marco importante para que, pouco tempo depois, criassem um sistema público e gratuito de saúde, agora para toda a população. 

Princípios e funcionamento do SUS

Oficialmente, o SUS foi criado em 1990, por meio das Leis nº 8.080 e 8.142, conhecidas como Leis Orgânicas da Saúde, que estabeleceram as diretrizes e a estrutura do sistema. Atualmente, o sistema conta com três órgãos que garantem o funcionamento para a população.

O Ministério da Saúde é gestor nacional que formula, normatiza, fiscaliza, monitora e avalia políticas e ações, em articulação com o Conselho Nacional de Saúde; a Secretaria Estadual de Saúde participa da formulação das políticas e ações de saúde, presta apoio aos municípios em articulação com o conselho estadual; e a Secretaria Municipal de Saúde articula com o conselho municipal e a esfera estadual para aprovar e implantar o plano municipal de saúde.

Além disso, três princípios são a base do SUS:

Universalização: a saúde como um direito de cidadania a todas as pessoas, sendo um dever do Estado assegurar esse direito. O acesso aos serviços também deve ser garantido a todas as pessoas, independentemente do sexo, raça ou outras características pessoais ou sociais. 

Equidade: mesmo que o acesso à saúde seja assegurado a todas as pessoas, elas não são iguais e, por esse motivo, precisam de atendimentos distintos, de acordo com a necessidade de cada uma. Ou seja, esse princípio leva em conta diminuir as desigualdades, tratando adequadamente as pessoas que precisam de cuidados especiais.

Integralidade: a integração entre ações como a promoção da saúde, prevenção de doenças, tratamento e reabilitação é o que favorece a população para que ela tenha uma vida mais saudável. Esse princípio se trata da articulação da rede com outras políticas públicas de diferentes áreas para a qualidade de vida dos indivíduos. 

Conquistas do SUS ao longo dos anos  

Considerado um dos melhores e mais completos sistemas de saúde do mundo, o SUS se destaca em diferentes frentes de atuação que fazem o Brasil ser referência. Como por exemplo a execução do Programa Nacional de Imunizações (PNI), que oferece vacinas gratuitas e em larga escala para eliminar ou controlar doenças como poliomielite, sarampo, difteria e tétano, entre tantas outras que já foram motivo de preocupação no país. 

Outros destaques do SUS são a distribuição gratuita de diversos medicamentos, até mesmo de alto custo. O tratamento para HIV/AIDS e doenças crônicas como diabetes e hipertensão também é disponibilizado para a população. 

Um grande exemplo de prevenção e acompanhamento contínuo que dão resultado é a Estratégia de Saúde da Família (ESF), que atua em modelo de atenção básica. Isso é considerado, também, por profissionais que atendem as pessoas que acessam esses serviços, como a Giovana Santos, assistente social do Instituto C, que considera a ESF um programa de referência. 

“A estratégia de saúde da família tem várias funções como atenção integral e personalizada. Então, ela cuida da saúde da população considerando os aspectos sociais, físicos, emocionais, e não a doença em si. Por meio da promoção da saúde e prevenção de doenças, a Estratégia Saúde da Família visa realizar ações no sentido pedagógico, mesmo em saúde, dentro dos territórios”, ressalta Giovana. 

A Beatriz Martins, nutricionista do Instituto, destaca também o trabalho das equipes nessa frente de atuação: “as equipes atuam de uma forma integrada e isso promove uma ampliação de acesso e fortalece a proximidade e vínculo das famílias com as unidades de saúde. Então, é uma política de grande sucesso”.

Serviços do SUS pouco conhecidos

Além dos serviços direcionados a população que são de conhecimento geral, como a atenção primária nas UBSs ou o pronto atendimento nas UPAs, o SUS também está presente em áreas que fazem parte da vida dos brasileiros. Uma delas é a vigilância sanitária, que é feita por meio do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS), que fiscaliza produtos, serviços e ambientes para prevenir riscos à saúde.

Para quem não consegue se locomover até um equipamento de saúde, o SUS tem o programa “Melhor em Casa”, que leva uma equipe à casa dos pacientes. Para acessá-lo, precisa ser indicado por outra equipe da Rede de Atenção à Saúde (RAS), seja do hospital, da Atenção Primária à Saúde (APS) ou da Urgência.

A reabilitação de pacientes também é algo que faz parte do SUS, que oferece próteses, cadeiras de rodas e outros recursos para pessoas com deficiência. Além disso, ele mantém Centros Especializados de Reabilitação (CER), que contam com acompanhamento multiprofissional. Para ter acesso, o paciente deve procurar uma UBS.

Desafios do Sistema

Apesar de todo reconhecimento merecido, o SUS ainda enfrenta muitos desafios, que passam principalmente pela gestão do poder público e pela má administração dos recursos na área da saúde. Isso afeta diretamente todos que precisam dos serviços e, muitas vezes, se deparam com longas esperas ou barreiras de acesso. 

Para a Giovana, o cuidado com a saúde como prevenção é mais eficiente quando falamos do Sistema Público: “se o recurso público destinado ao SUS focasse no cuidado, prevenção e promoção à saúde, menos pessoas ficariam doentes e ficariam hospitalizadas ou precisariam de exames e medicações caras”, reflete. 

A localização também é uma das barreiras que impedem as pessoas de conseguir alguns tipos de atendimento, isso porque muitos hospitais e tratamentos mais complexos ficam localizados nas grandes cidades. “Algumas populações que vivem em regiões mais distantes e mais afastadas dos centros, têm uma dificuldade de acesso a esses serviços. E também as capitais mais ricas têm um acesso mais rápido, mais abrangente”, explica Beatriz. 

É nesse contexto de difícil acesso que as organizações sociais são fortes aliadas para conectar as pessoas aos serviços de saúde, que são um direito delas. 

Organizações sociais aliadas do SUS e da população

O Instituto C e tantas outras organizações atuam como uma ferramenta que conecta as pessoas aos serviços. Por aqui, nossa equipe técnica acolhe muitas famílias com crianças que realizam tratamentos no SUS, e buscamos tornar esse processo mais acessível para elas por meio da informação. 

“No Instituto, por exemplo, a gente faz todo um movimento de reforçar esse lugar político das famílias atendidas. Então, considerando o Instituto e as ONGs que eu conheço, eu acredito que todas estão muito alinhadas nessa ideia do direito social”, reforça Giovana. Além das organizações que atuam com as famílias fora dos equipamentos de saúde, a população organizada nos territórios também é essencial para garantir que os pilares do sistema continuem sendo levados à risca. 

Uma das atuações dessas organizações é dentro dos territórios que carecem de um atendimento mais ativo, como pontua a Beatriz: “elas têm um papel muito importante para expandir o acesso, por exemplo, à cobertura em regiões em que o Sistema Único de Saúde não consegue chegar”.

Esse trabalho que realizamos no Instituto C – assim como tantas outras organizações também se dedicam a fazer – é, também, uma forma de fortalecer o SUS e garantir que as pessoas possam acessar seus direitos na saúde. 

Agora, nós queremos levar esse cuidado e essa ponte entre famílias e serviços de saúde ainda mais longe, e faremos isso expandindo nossa atuação para um novo município. Com uma contribuição a partir de 10 reais, você pode fazer parte dessa transformação e nos ajudar a alcançar novas famílias. Clique na imagem e venha com a gente dar esse próximo passo!