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História de Mulheres

O direito à autoestima das mulheres negras

O dia 25 de julho, há mais de trinta anos, carrega consigo um significado importante: é o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Essa data foi criada em 1992, quando mulheres negras de diferentes países se reuniram em Santo Domingo, na República Dominicana, no 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas.

A mobilização deu origem à Rede de Mulheres Afro-Latino-Americanas, Afro-Caribenhas e da Diáspora, criada como um espaço de articulação política, reflexão, intercâmbio e denúncia das desigualdades produzidas pelo racismo e pelo sexismo. Foi nesse mesmo contexto que a Rede instituiu o 25 de julho como uma data de reconhecimento da existência, lutas e contribuições das mulheres negras do continente. Em 2024, a data foi oficializada pela ONU como Dia Internacional das Mulheres e Meninas Afrodescendentes.


Você sabia?

Desde 2013, esse mês é chamado no Brasil de Julho das Pretas. O movimento foi criado pelo Instituto Odara na Bahia e, a cada ano, tem ganhado novas proporções. Para saber mais, leia em nosso blog clicando aqui.


Direito à autoestima historicamente negado

As barreiras que mulheres negras enfrentam, no Brasil, para terem seus direitos garantidos não são de hoje. Desde os primeiros séculos de colonização, europeus privaram pessoas de diversos povos africanos de se reconhecerem enquanto seres humanos, escravizando-as e minando assim sua autoestima. A “estima” nunca era para si próprio, mas sempre direcionada aos senhores brancos.

Desde os navios negreiros, a sociedade buscou minar de diferentes maneiras a autoestima de pessoas negras, afinal, sua autovalorização seria um risco a um sistema pautado em sua dominação. Condenou-se a fé, cultura, beleza, hábitos e idiomas africanos, para exaltar o que vinha da Europa. Tornaram a autoestima um sentimento branco.

Mesmo após a abolição, a estrutura social brasileira continuou dificultando, em muito, a autoconfiança dessas populações. Se alguém não tem o direito nem de ter moradia, alimentação saudável e trabalho digno, como encontrará condições favoráveis para refletir sobre si e enxergar suas potências?

E agora, séculos mais tarde, segue sendo obrigação do Estado reparar todos os direitos que foram retirados dessas pessoas. Entre eles, o direito à autoestima.

Ajustei a repetição e tornei a passagem entre os parágrafos mais contínua:

Aqui no Instituto C, entendemos que o fortalecimento da autoestima é um passo primordial para a conquista da autonomia de cada família atendida. Compreendemos também que esse processo pode ser ainda mais desafiador para pessoas negras, diante de injustiças históricas cujos efeitos permanecem presentes em uma sociedade ainda marcada pelo racismo.

Essas consequências seguem sendo muitas vezes ignoradas, enquanto as violações produzidas pela escravização e pelos séculos de exclusão ainda não foram totalmente reparadas. Por isso, essa reflexão ganha especial relevância em nossa atuação, já que as mulheres negras representam a maior parte do público que acompanhamos.

 

O que é autoestima?

Autoestima é, segundo a definição do dicionário Michaelis, “o sentimento de satisfação e contentamento pessoal que experimenta o indivíduo que conhece suas reais qualidades, habilidades e potencialidades (…)” Ou seja, é a qualidade de quem se valoriza e está satisfeito com seu modo de ser.

Segundo Noaly Avenoso, psicóloga da equipe técnica do Instituto C, a autoestima engloba tudo, desde as relações sociais até a maneira como a pessoa se sente consigo mesma. “Ela não envolve apenas as inseguranças e pressões sociais que todo mundo tem, principalmente nós, mulheres. Vai além disso: passa pelo cuidado e pelo autocuidado.”

 

A autoestima vai muito além da questão da autoimagem. Não é sobre se achar bonita ou feia. Atendendo majoritariamente mulheres, eu vejo muito essa dificuldade, por exemplo, de olhar para aquilo que elas são capazes de fazer. Principalmente entre as mulheres pretas, que aprenderam desde cedo a apenas seguir a vida”, explica Suellen Claudino, psicóloga técnica do IC.


Há, portanto, inúmeras maneiras para alguém fortalecer a autoestima. Pode ser ao enxergar a beleza em seu próprio corpo, mas também ao
reconhecer a própria humanidade. “O direito ao cansaço é uma forma de fortalecer a autoestima”, diz Noally. Isso porque, quando uma mãe negra e periférica afirma que não dá conta de tudo, ela vai contra a imagem sobrenatural que a sociedade constrói dessa mulher “guerreira e imbatível”.

 

Há 20 ou 30 anos, se você tinha cabelo crespo, você tinha ‘cabelo duro’. Sua obrigação era alisar. Você só era bonita se fosse branca. Então, não é que uma mãe preta não ensinou sua filha preta a se achar bonita. É que essa mãe preta não tinha esse recurso. Ela aprendeu com as antepassadas: ‘Se o seu cabelo é crespo, passa o ferro’”, comenta Suellen.

 

A autoestima no trabalho

Outro ambiente em que a autoestima pode ser desenvolvida é no trabalho, ao se perceber o impacto e qualidade do serviço prestado. Foi o que aconteceu com Cristiana, 52 anos, atendida no Polo Zona Norte do IC, em São Paulo (SP). Cris é diarista, faxineira e conta que, por muito tempo, não dava o devido valor àquilo que fazia. Além disso, hoje percebe a quantidade de vezes que sofreu racismo nas casas em que trabalhava.

Em uma delas, passou seis anos sendo distratada semanalmente e ouvindo ofensas racistas — chegou inclusive a ser acusada, injustamente, de ter roubado um par de brincos. “Toda quinta-feira, me dava dor de estômago, me dava urticária, me dava tudo. Até que teve um dia em que eu falei: ‘Não, agora chega’”, conta.

Hoje Cris tem uma maior percepção do bem-estar que diaristas e faxineiras causam à vida das pessoas. Ela percebeu que é uma prestadora de serviços e que as famílias para quem ela trabalha são seus clientes. Por isso ela organizou sua agenda, fez uma tabela de preços e já não aceita ter seu trabalho reduzido. 

 

O valor da minha diária como diarista é um, e o da faxina [trabalho mais pesado] é outro. E eu não abaixo o preço: se a pessoa não puder pagar o que eu estou pedindo, ela vai procurar outra profissional. Antes, eu negociava meu trabalho, mas aprendi isso há pouco tempo: a me valorizar,” conta com orgulho.

 

Três histórias sobre autoestima

Em nossos polos, há um fluxo grande de famílias que chegam com novas histórias e desafios próprios. Quase sempre, o trabalho de nossa equipe técnica passa por apoiar o fortalecimento da autoestima das representantes familiares em diferentes aspectos e possibilitar um espaço de trocas entre elas, para que possam compartilhar e se identificar com as vivências umas das outras. Reunimos aqui uma coletânea de histórias em que pudemos acompanhar de perto a construção da autoconfiança de mulheres negras.

 

“Tudo é construção social e o coletivo é uma resposta para o fortalecimento da autoestima. Então em nossos grupos, elas se fortalecem muito, porque compartilham histórias, com uma condução profissional, e saem daqui amigas”, diz Noally.

 


1) A vida depois do infarto

Entre março e abril deste ano, *Eduarda (49 anos) sofreu um infarto e permaneceu internada por três ou quatro dias. Durante esse período, percebeu a dimensão do papel que exercia dentro de casa. A família conseguiu realizar as tarefas básicas, mas teve dificuldade para manter a organização e a dinâmica cotidiana. Eduarda pôde então reconhecer que era um dos pilares da família e que sua presença tinha uma importância que ela própria não calculava.

2) Passatempo pra quem?

Durante um dos atendimentos no IC, *Amélia, de 46 anos, contou que sua mãe gostava de fazer pão e considerava essa atividade uma espécie de terapia. A família, por isso, procurava comprar os ingredientes necessários para que a mãe pudesse continuar fazendo algo que lhe proporcionava prazer. No entanto, quando a técnica do IC perguntou qual era a “terapia” daquela mulher, ou seja, qual seu passatempo predileto, ela travou e disse apenas: “Caramba, não sei!”

 

A mãe se esquece dela, perde totalmente a identidade. Ela acha que é apenas a mãe de alguém e deixa de se apresentar pelo próprio nome. Nas nossas rodas, a gente sempre pede que elas se apresentem e digam o próprio nome. Muitas respondem: ‘Eu sou fulana, mãe de fulano’. E a gente nunca pede para que elas falem isso”, aponta Noally.

 

3) Que brincos bonitos!

*Laura, 47 anos, nunca havia usado brincos. Quando era criança, sua mãe não permitiu que ela furasse as orelhas por uma questão ligada aos costumes familiares. Um dia, ela recebeu um par de brincos pequenos como lembrança de uma atividade realizada em sua comunidade de fé. Decidiu usar os brincos e recebeu elogios de amigas, o que a deixou muito feliz! A partir daí, a mulher passou a usar brincos cada vez maiores e mais marcantes.

*Nomes fictícios