Doação

Cultura de doação: brasileiros são sinônimos de generosidade, mas ainda podemos ir mais longe

A cultura de doação é uma construção coletiva que reúne valores e práticas que incentivam pessoas e empresas a contribuírem de forma voluntária para causas sociais, ambientais, culturais, entre outras. A consciência social e o engajamento coletivo, juntos, despertam a doação como um comportamento natural, fazendo com que esse gesto seja parte da nossa responsabilidade enquanto sociedade. 

Estamos entre os países mais generosos do mundo, e isso reflete o quanto os brasileiros estão sempre dispostos a ajudar uns aos outros. Uma pesquisa do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social – IDIS realizada em 2024 constatou que as doações individuais no Brasil chegaram a R$24,3 bilhões no ano passado – a pesquisa analisou o conceito de doação institucional em dinheiro feita para ONGs, campanhas ou projetos socioambientais.

Para João Paulo Vergueiro, diretor para América Latina e Caribe do Giving Tuesday, a população latina leva essa generosidade como algo cultural. “De forma geral, a nossa população latino-americana e caribenha é bastante generosa. A gente tem uma cultura de solidariedade entre as famílias, nas comunidades, nas igrejas, nos clubes, associações de bairro e escolas de samba”, reflete. 

Outros dados da pesquisa nos fazem entender o cenário das doações no Brasil, como por exemplo a média das doações individuais anuais, que passou de R$ 300 em 2022 para R$ 480 em 2024. Muitos doadores adotam uma postura estratégica: 83% buscam informações antes de contribuir e 86% afirmam escolher cuidadosamente as causas às quais desejam apoiar.

Barreiras que dificultam a doação

Para as organizações sociais que precisam de doações para conseguirem se manter, esse ainda é um cenário que precisa ser explorado para captar mais pessoas que queiram contribuir. Apesar dos desafios, João Paulo explica que as pessoas tendem a doar para causas que estejam mais próximas de suas vidas, como saúde, educação e infância, por exemplo. Ele reflete que essa “aproximação” com uma temática ajuda a sensibilizar os doadores. 

A pesquisa do IDIS ainda revela que as pessoas doam mais para situações emergenciais, como a tragédia no Rio Grande do Sul que aconteceu em 2024. Eventos extremos como esse mobilizaram metade da população brasileira para doar no ano passado, mas também acendeu uma desconfiança que já existe para quem doa. Com a quantidade de lugares recolhendo doações, ficou difícil distinguir o que era golpe e o que era sério, e essa é uma preocupação constante para os doadores, não somente nesses momentos. 

A Paloma Costa, gerente de relacionamento institucional do Instituto C, vê na prática o quanto esse receio ainda atrapalha as doações. “Essa desconfiança generalizada cria um bloqueio emocional e racional na hora de doar. Por isso, transparência, prestação de contas e comunicação clara são essenciais para reconstruir a confiança das pessoas”, explica.

Um outro obstáculo que precisa ser enfrentado é o senso de coletividade, que pode ser despertado levando para as pessoas esse desejo de contribuir para o desenvolvimento da sociedade, refletindo o quanto afeta a todos. Organizações como o IC tem feito isso por meio de conteúdos que levam informação e mostram o quanto o terceiro setor tem mudado a realidade de várias famílias.

Como incentivar a generosidade

Incentivar a doação como uma ação contínua ainda é um desafio, mas que pode ser trabalhado por meio de ações que mostrem o impacto delas na vida das pessoas que são beneficiadas. Doar é, também, compartilhar um privilégio que um dia foi oferecido aquela pessoa, para assim reduzir as desigualdades. 

O ideal é mostrar para uma pessoa que a doação pode fazer parte da sua vida, como uma prioridade mensal que será refletida em causas que têm impacto no bem-estar social. “É fundamental mostrar às pessoas que, ao contribuir, elas não estão apenas ajudando momentaneamente, mas ampliando o acesso a direitos que muitas pessoas não possuem, transformando solidariedade em cidadania ativa”, explica Paloma.

Uma das formas de integrar a doação no dia a dia das pessoas é por meio das leis de incentivo fiscais como a doação de parte do Imposto de Renda a projetos esportivos, sociais e culturais. Ou também por iniciativas como a Nota Fiscal Paulista, que pode ser doada a organizações cadastradas no programa. Tornar público o conhecimento sobre iniciativas desse tipo é uma maneira de incentivar a doação.

Doar faz bem pra todo mundo 

A doação faz bem de diversas formas, mas para o doador também pode ser uma mudança de perspectiva. “O ato de doar preenche a pessoa que doa porque ela sabe que está compartilhando com outras pessoas aquela responsabilidade de fazer a diferença na sociedade”, reflete João Paulo. 

Em inglês, a expressão “give back” define bem o sentimento de devolver à sociedade o que um dia alguém recebeu. Em português, podemos dizer que esse sentimento se equivale a um sentimento de gratidão por ter a chance de impactar positivamente a vida de pessoas e instituições que precisam de cuidados. 

O ato de doar, de forma geral,  produz um sentimento de satisfação e de felicidade, como é comprovado por pesquisas. “A doação tende a fazer com que as pessoas se sintam mais em paz consigo mesmas e com a sociedade que elas entendem que elas estão fazendo a parte delas para contribuir para um mundo melhor”, diz João.

Dia de Doar 

O Dia de Doar é uma iniciativa global que promove a generosidade e a cultura de doação nos países. Neste ano, o dia escolhido é 2 de dezembro, e é nessa data que organizações e pessoas da sociedade civil se mobilizam para arrecadar doações, seja para causas específicas ou ONGs que trabalham temáticas diversas. 

João Paulo é um dos pioneiros do Dia de Doar no Brasil. Ele esteve na construção do movimento no país e hoje reconhece que estamos entre os países onde a data mais se disseminou. As campanhas funcionam de diferentes formas, por meio das próprias organizações ou até mesmo campanhas organizadas pelas próprias comunidades. O desafio, agora, é fazer com que esse dia chegue a mais pessoas e “fure a bolha” do terceiro setor. 

A mobilização coletiva já tem feito a diferença, e vai continuar fazendo ainda mais. “O dia de doar é sobre generosidade, sobre fazer o bem. Então, toda forma, toda expressão de generosidade é válida no dia de doar, e você pode falar sobre o que você quiser, desde que seja fazer o bem” reforça João.

Para disseminar o bem, nesse dia de doar te convidamos a ajudar o Instituto C a hackear as desigualdades e multiplicar o cuidado para centenas de famílias. No IC, hackeamos e tiramos do caminho tudo aquilo que impede que famílias em vulnerabilidade social alcancem plena cidadania, como a falta de acesso à informação sobre direitos, ausência de rede de apoio e a falta de autoestima. Clique no botão abaixo e saiba como doar.

 

História de Mulheres

Empoderamento para as mulheres: empreendedorismo nas periferias tem transformado a vida de muitas mães

O empreendedorismo entre as mulheres da periferia cresce cada vez mais e mostra o quanto esse formato de trabalho tem transformado as famílias. O público feminino aposta em diferentes áreas para criar seu próprio negócio, especialmente nas regiões em que vivem, onde as demandas por serviços passam pelos próprios bairros. Só em 2024, as mulheres representavam 34% de quem empreendia em setores como serviços, comércio e tecnologia no país todo. Já nas favelas, as mulheres lideram 60% dos empreendimentos, de acordo com pesquisa do Investe Favela.  

Para as mães, o empreendedorismo traz a oportunidade de serem donas do próprio horário de trabalho, o que é importante especialmente para as que cuidam de crianças atípicas. No Instituto C, muitas mães empreendedoras dividem a vida entre o cuidado com os filhos e o trabalho de forma autônoma. Apesar dos obstáculos, elas conquistam a própria independência financeira e também resgatam a autoestima a partir do que fazem em casa. Com isso, a família também se torna mais fortalecida a partir dos acessos que a mãe passa a ter. 

Desafios de empreender nas periferias

Mesmo com o crescimento do empreendedorismo entre as mulheres das periferias, muitas delas ainda encontram barreiras que dificultam o crescimento profissional. Segundo nossas analistas de renda Carol e Giovana, uma das maiores dificuldades enfrentadas por elas é o acesso limitado a recursos financeiros, principalmente para as empreendedoras nas áreas de alimentos e beleza, que precisam investir para ter resultados positivos. 

A falta de acesso ao conhecimento necessário para regularizar um negócio também é algo que impede o crescimento dessas mulheres. Por isso, um dos nossos trabalhos é levar informação para que elas conheçam seus direitos enquanto empreendedoras, seja por meio da abertura do MEI ou outras iniciativas do poder público. 

Além disso, em áreas periféricas o empreendedorismo é muito presente, o que reflete também em uma competição acirrada entre os empreendedores. Isso exige que as mulheres busquem novas formas de desenvolver seus trabalhos para se destacar nessa “vitrine” de negócios e conseguir atingir seus públicos. 

Outro ponto importante a ser lembrado é que muitas mães empreendem por necessidade, nem sempre por vontade, e isso faz com que elas não se enxerguem como empreendedoras. Essa necessidade vem de um lugar onde elas precisam de uma renda e ao mesmo tempo de flexibilidade. “Não é de um viés empreendedor, é de um viés da vulnerabilidade”, explica Giovana. 

Geração de renda no IC

Nossa área de renda é a responsável por ouvir essas mães empreendedoras, e muitas histórias boas passam por aqui. Os negócios vão desde a venda de bolos, até a criação de brinquedos pedagógicos por meio do artesanato e a decoração de unhas como nail designer. Muitas dessas mulheres conseguem transformar um hobby em um trabalho remunerado. 

“O trabalho da renda no Instituto C é levantar com a família estratégias e possibilidades sobre saúde financeira e ampliação de renda”, explica Giovana Santos, analista de renda do Instituto. Com a orientação das nossas técnicas, as mães compartilham suas experiências e também recebem orientação sobre a relação do MEI, benefícios de transferência de renda, organização e ingresso em cursos técnicos e ensino superior.

Para a Carol Fontes, também analista de renda do IC, essa vontade de empreender e se mobilizar para fazer a sua própria renda, é por conta das responsabilidades que elas têm de uma rotina que elas precisam de flexibilidade. Isso porque essas mulheres muitas das vezes são as únicas pessoas que podem cuidar de outras pessoas das suas famílias.

Mães que viram no empreendedorismo uma oportunidade

A Nathalia Stephanie mora com a filha e é um exemplo de mulher que uniu um sonho com o trabalho. Ela fez um curso de manicure no IC (em parceria com a Acciona) e, a partir dele, despertou um olhar para essa área que hoje é a sua paixão e também sua fonte de renda. Em meio a um mercado com muitas profissionais, a Nathalia precisou buscar um diferencial para se conectar com as clientes, que foi por meio do atendimento à domicílio. Assim, ela conseguiu chegar a mais clientes no bairro em que mora, até o momento que está hoje, onde atende no próprio estúdio em sua casa e também dá cursos. 

Ao elevar a autoestima de outras mulheres, a Nath enxergou na área da beleza uma possibilidade de transformar a vida de sua família e, assim, também mudar a forma que ela se enxerga como mulher. “Às vezes a gente pensa que é uma unha, mas é sempre mais que isso. A minha profissão me deu fé e esperança, e eu levo isso pras minhas clientes”, reforça.

Assim como Nathalia, a Fátima Regina também mora com a filha e encontrou no cuidado com a beleza das mulheres uma forma de empreender como cabeleireira. Mas, durante a pandemia ela se viu em um cenário onde precisava se reinventar, já que os salões precisaram fechar e o trabalho foi diminuindo. Foi assim que ela começou um novo negócio: a venda de livros por meio de uma plataforma digital. 

A Fátima sempre gostou de ler e, como os irmãos também empreendem vendendo livros, ela pensou que essa seria uma ótima opção para complementar a renda. Hoje, ela tem um acervo com cerca de 2.000 livros – todos recebidos por doação – e considera que começar a vender livros trouxe para ela novas perspectivas de conhecimento, já que ela precisa saber um pouco de cada assunto. 

Novas perspectivas de empreendedorismo 

O conhecimento e a vontade de criar coisas novas foi o que motivou a Vanessa Ferreira a fazer do artesanato sua fonte de renda. Vanessa é mãe de dois filhos e sempre gostou de usar a criatividade para fazer itens que vão desde bolos decorativos até brinquedos pedagógicos. Em seu ateliê em casa, ela consegue conciliar o trabalho com a criação dos pequenos. 

Além dos brinquedos, hoje a Vanessa também vende mini donuts que ajudam a ter uma renda extra para contar. Ela considera que fazer as artes também é uma forma de ocupar a mente com algo que gosta e, em contrapartida, também consegue cuidar mais de si. “Nessa hora [que estou trabalhando] não é só a Vanessa mãe das crianças, também consigo ser eu, ter minha utilidade e colocar para fora as ideias”, explica. 

Já a Natália Alves é mãe de duas meninas e empreende junto com o marido. Eles vendem roupas e ela também apostou na confecção de bolos e doces para conseguir criar as filhas. Ela sempre gostou de empreendedorismo e diz que sonha em abrir o próprio negócio um dia, para assim conseguir crescer ainda mais. 

As vendas fazem parte da sua vida há muitos anos, e hoje ajuda também a ter mais flexibilidade para cuidar das crianças e até mesmo levá-las junto nos dias em que é necessário. No final, as mães atípicas precisam de um trabalho que se adequa à rotina delas e das crianças. 

“A sensação é de empoderamento”

O empreendedorismo também tem fortalecido entre essas mães e criado um senso de comunidade que vai além dos negócios. No nosso dia a dia, vemos o quanto elas conseguem trocar experiências, construir uma rede onde consigam se acolher para, assim, crescer ainda mais enquanto empreendedoras. 

No Instituto C, muitas mães atendidas lidam com questões na maternidade que envolvem a saúde dos filhos, e acabam se deixando de lado em meio a correria do dia a dia. Ter o próprio negócio dá a elas uma visão de mundo diferente e as faz enxergarem a si mesmas para além dos filhos, mas também como mulheres que também precisam de cuidado. “Muitas das mães atípicas não tem companheiro, então precisam acreditar que o potencial delas vai além e que elas podem viver”, reforça Natalia.

Mesmo com as dificuldades, as mulheres empreendedoras se sentem realizadas e acreditam que esse é um caminho possível para muitas mães. A Fátima reforça isso: “empreender é um abismo, mas para mim é mais importante ter a minha liberdade de tempo e de poder fazer as coisas quando eu quero. Não é fácil, mas vale a pena o custo”.